CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Samurai de um olho só

Ainda em preto e branco, o personagem Tange Sazen estreou no cinema em 1935, cujo papel coube a Denjirô Ôkochi, e dirigido por Sadao Yamanaka. Toda a trama de Hyakuman Ryô no Tsubo (O vaso de um milhão de ryo) teria sido escrita por Fubo Hayashi, sendo este um dos primeiros heróis do cinema falado, cujo desempenho de Denjirô Ôkochi cria um tipo de personagem popular ao estilo dos filmes jidai geki – filmes de época.

O que caracteriza este personagem é o seu aspecto nada atraente: sem o olho direito, sem o braço direito. Assim se apresenta Tange Sazen, que mostra-nos alguém desleixado, que anda com os passos irregulares, toma saquê e grande parte do tempo está deitado no tatame. Seria um rônin, samurai errante, que para sobreviver torna-se uma espécie de guarda-costas de uma casa de diversões. Quando algum freguês cria algum problema, a dona do estabelecimento o chama para contornar a situação com o uso da força. Desta forma, Sazen demonstra suas habilidades com o uso da espada.

Para quem não está acostumado, a situação se torna cômica, pois Sazen deve desembainhar a sua espada apenas com a mão esquerda. Numa situação real, quase impossível tal façanha. O que faz é o seguinte: segura a bainha com os dentes e saca a espada com a mão esquerda. Atira a bainha no chão e põe-se a lutar com a mão que possui. Fazendo movimentos irregulares, numa técnica que somente ele tem domínio, põe os adversários fora de combate.

No primeiro momento, o aspecto de Sazen assusta os oponentes. Sem o uso do olho direito, este possui uma cicatriz profunda em forma de um corte transversal. Quando dirigem a ele, dizem tratar-se de um obakê. Podemos traduzir esta palavra como monstro, um fantasma aterrorizante, um ser horrível devido justamente ao aspecto. Foi justamente esta apresentação de herói, ao contrário, um anti-herói, agradou, pois o público identificou-se pelo tipo às avessas do padrão comum. Possivelmente dos heróis de espada do cinema japonês, Tange Sazen seja um daqueles que deu certo justamente pela sua deficiência.

A exploração desta história, possui um tom cômico, pois se trata de um vaso que acabou sendo enviado por engano aos noivos. Descobre-se depois que o vaso esconde um tesouro que vale em torno de um milhão de ryo. Tarde demais, pois a esposa desgostosa do presente, acaba vendendo para uma dupla de compradores de tralhas. Mostra dois homens em andrajos, caminhando como que um fosse a sombra do outro. Nada falam, como nos filmes mudos de então.

O vaso acaba chegando à posse de um menino órfão, que ao ganhar um peixinho dourado (kingyo) não tendo onde colocá-lo, recebe-o dos próprios compradores. Nada poderia ser mais simples do que este enredo. Seria muito apropriado para uma peça de teatro, tal a performance do ator principal, cuja carranca assusta e igualmente desperta carinho das crianças. É o que acontece com Yasu, o menino do vaso e do peixinho. Seria este o segredo do sucesso de Tange Sazen – agradar as crianças. De fato, o cara de Sazen assusta menos as crianças do que os adultos. Mas os adultos também acabam de se deixar conquistar por este personagem.

O sucesso deste filme não foi suficiente para se fazer um outro sem seguida, pois o Japão ingressava na 2ª. Guerra Mundial. Assim, o segundo de uma série vai acontecer somente em 1952 (Tange Sazen) e distribuído pela Shochiku. A primeira versão teve na Nikkatsu a distribuidora. Já em 1959, em versão cinemascope, é lançado Mystery of the twin dragons (Tange Sazen Doten Hen) e no ano seguinte Return of the One Armed Swordsman (Tange Sazen Yoto Nuretsubame), ambos com o ator Ryutaro Otomo.

Tanto no filme de 1935, como também no de 1960, uma cena engraçada se sucede. Tange Sazen tem uma artimanha para ganhar dinheiro, de uma maneira pouco elegante. Visita as academias de esgrima e desafia o mestre. Muitas vezes este não se encontra ou não quer lutar. Nesta situação, Sazen se dá no direito de levar consigo a placa da academia como sinal de vitória. No primeiro filme, ele negocia com o oponente uma derrota, no outro, perde de propósito para a filha do mestre. Muito pouco provável, mas não no cinema.

 

FRANCISCO HANDA

FRANCISCO HANDA

chicohanda@yahoo.com.br
FRANCISCO HANDA

Últimos posts por FRANCISCO HANDA (exibir todos)

     

     

     

    Related Post

    AKIRA SAITO: ARTES PARA A VIDA “A simples prática de uma Arte tem o poder de transcender a matéria e alcançar o espírito”   Assim como no Budo (Caminho Marcial) as artes ja...
    JORGE NAGAO: Professor Hirota, e agora?   Esta foi a pergunta que Helio Teruo, Tikao Tanaka e outros vinte discípulos certamente fizeram ao professor Hirota no dia 22 de dezembro qua...
    MUNDO VIRTUAL: Privacidade e o local de trabalho Os recursos tecnológicos trazem inúmeras comodidades à nossa vida, em áreas que muitas vezes nem imaginamos, mas também trazem ônus e restrições, pois...
    ERIKA TAMURA: A importância da qualificação do tra...   No artigo dessa semana vou ressaltar um assunto que venho falando insistentemente, e que infelizmente, a comunidade brasileira que vive no J...

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *