CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Um olhar sobre o Japão

Em recente viagem a este país enigmático, a terceira realizada por interesses pessoais, ainda me causou um espanto. Não se trata apenas em perceber que os japoneses dirigem os seus carros na mão direita, como os ingleses, uma maneira pouco convencional se acostumados que estamos na mão esquerda tal feito pelos americanos. Também, os japoneses, na maneira tradicional, sentam-se nos tatames o que causa uma dor terrível naqueles não acostumados, incluindo-se os habitantes do resto do mundo. Não se trata apenas em sentar-se desta maneira, mas de forma adequada, com a coluna alinhada e demonstrando suavidade.

Com a proximidade das olimpíadas de 2018, o Japão também se prepara para receber os visitantes estrangeiros. Em todo as estações de trem os anúncios são feitos desde agora em japonês e inglês, em outros locais, também em chinês e coreano. Os turistas são muitos. Há quem se comunique em inglês nas estações. Justamente próximo às estações diversos hotéis disputam os hóspedes. No Japão, fiquei sabendo, de que o transporte ferroviário encerra suas atividades num determinado horário. Nesse caso, o viajante terá que recorrer aos serviços da cadeia hoteleira local. Mas deve evitar chegar de chofre. Seria aconselhável fazer uma reserva através da internet.

Se a rede de comunicação é eficiente, a sua eficiência me causa um certo desconforto. Se fosse menos eficiente, pelo menos, haveria espaço para alguma improvisação. Poderia dizer de outra forma: usar a criatividade. Mas isso não acontece por lá. Pelos altos falantes, anuncia o número dos carros, inscrito também nos bilhetes que se adquire pelas máquinas de venda automática. O horário é seguido à risca, sem nenhuma alteração. Se o trem sair às 7h03, pode-se tornar um pesadelo se tomar às 7h00, pois o destino pode ser totalmente diferente. De tal forma que os japoneses são fissurados pelo horário, existe um sistema que regula os relógios de todos os seus habitantes. Por onda de rádio, os relógios são ajustados. Por isso, não existe um horário diferente para cada relógio, numa grande libertinagem liberal e individualista.  “Tenho o direito de atrasar, conforme a minha vontade”, poderia causar um grande transtorno social.

Um morador do Japão me disse de que tempos atrás todo o sistema de transporte férreo de Tóquio parou devido um acidente. Não foi uma pessoa que se jogou nos trilhos, mas apenas o chapéu de um passageiro caiu na linha. Foi o suficiente para se instalar o imprevisto, tendo o causador arcado com uma pesada multa. Ainda que aconteça o imprevisto, os japoneses não são dados a isso.

Numa sociedade de iguais, país pequeno e população significativa para ocupar as planícies, pois o resto é formado por montanhas, o Japão implantou um sistema de códigos, etiquetas, formas e mesuras que facilita o relacionamento humano. Não que sejam antissociais, mas tímidos no relacionamento entre desconhecidos. Ficam esperando que alguém dirija a palavra primeiro, que respondem de maneira cordial. Da população que se desloca, usando o sistema férreo, puxam as malas com rodinhas, tanto os jovens, as mulheres, homens e idosos. Naquele país, viajar é um desejo comum, pois existe segurança suficiente no meio de transporte e facilidade do meio hoteleiro. Conforme me disseram, muitos aposentados, livres da obrigação de criar seus filhos menores, lançam-se a realizar viagens. Alguns viajam, inclusive, separados, cada um com o destino de sua preferência. Se quiserem levar mais de uma mala, podem solicitar os serviços de entrega rápido, retirando seus pertences no local que desejar. Possivelmente a mala poderá chegar antes mesmo de seus donos.

No Japão, parece que o sucesso do capitalismo formou hegemonicamente uma classe média estável, de assalariados. Sem a presença significativa de uma classe c e d, não conseguem os serviços de uma faxineira. Ninguém tem uma empregada doméstica. Na dependência de quem preste estes serviços, principalmente nas linhas de produção, dependem de mão-de-obra estrangeira. Mão-de-obra de valor mas visto com desconfiança pelos japoneses. Quando se percebe a presença de um estrangeiro, não sendo este um turista, é um trabalhador comum para serviços especiais. Não sendo japoneses, são estrangeiros trabalhadores que se comportam como tal. Diferentes daqueles, sofrem discriminação pelo fato de serem diferentes. Não gastam suas finanças, como os japoneses em viagens, roupas e maquilagem.

Sendo uma condição dos países desenvolvidos, a enxurrada de migrantes fugindo da guerra, da miséria, tem modificado a sociedade local. Ao mesmo tempo que o capitalismo promove a riqueza, o bem-estar material, outros frutos de sua consequência padecem na pobreza. Mas a própria riqueza necessita da pobreza para facilitar a vida de seus habitantes, ainda que venha de outros países. Se isso é necessário, ser receptivo ao migrante torna o habitante nativo mais cosmopolita. É o que acontece com o Japão, pois as cores são outras, o mesmo com as línguas e alimentação. Uma cultura múltipla começa a germinar.

De um lado para outro se ouve o português, não somente este, outros como o mandarim no bairro chinês de Yokohama, também o coreano, as línguas da Indonésia, das Filipinas e Paquistão. É o Japão de hoje, mais internacional do que nunca, que recebe imigrantes diversos por uma necessidade econômica. Os imigrantes, da mesma forma, imigram para o Japão pelo mesmo motivo.

 

FRANCISCO HANDA

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