CANTO DO BACURI – Francisco Handa: Uma febre que queima

 

 

Num repente qualquer
sinto na pele arder
queimando
numa lava crescente
uma febre que não passa
e insiste em ficar
enquanto nada faço
senão contemplar
um atordoamento
cambaleante e insano.

Nenhuma água será suficiente
para apagar a quentura
dos amores vividos
incertos na propositura
de uma ordem imposta
e dada.

Não tenho que esfriar
este fogo
Não tenho que deixar
de viver
e se viver for queimar
eternamente
que posso fazer
além de queimar
mais ainda
sem nada esperar.

Assim as emoções serão
extremas
bem como extremas serão
as tristezas e as dores.
Nada disso importa
quando se queima
numa ardência
que deixa marcas profundas
de uma vivência que pode ser
mais negada.

Quatro cegos passavam

Todos os dias
todos na mesma hora
em fileira inteira
vão passando em carreira
um cego com bengala
atrás deste vai outro cego

vai mais outro
e mais outro ainda.

Sem errar um passo sequer
o que o cego da frente fazia
o de trás fazia
o outro também
repetido por outro ainda.

Todos os dias
descia a ladeira
depois subia
sempre no mesmo lado
da calçada
fazia sol
fazia chuva
sem se cansar
lá ia
o cego da frente
seguido pelos outros
um caminho que os pés
conheciam
cada irregularidade da pedra
desgastada e lisa.

Um dia pararam de passar
nunca passaram mais
ninguém se importou
nem repararam que um dia
os cegos desciam a calçada
os cegos subiam a calçada
mais cegos estavam os outros
que diziam que viam.

Declaração à Mariana

Numa parede encardida
de uma vila perdida
da zona norte
alguém postou:
Te amo Mariana.

Nunca conheci alguém
que se chamasse Mariana
poderia ser gorda
talvez magra com cabelos longos
poderia ser desdentada?

Poderia ser todas as mulheres
com todos os outros nomes
e amadas por um único homem
que teve a coragem de declarar
Te amo Mariana.

Redação

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