CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Uma sociedade de iguais

Quando fazemos uma reflexão sobre a história da humanidade, o que se constata é a existência de classes sociais distintas, numa relação hierárquica e de poder. Assim teria sido na Índia, que não se trata apenas de classes, mas de castas sociais em que nascer e pertencer a uma casta é uma condição definitiva de existência. Nesta estrutura, na parte superior estão os brâmanes, sacerdotes de estirpe, a mais respeitada e alta daquela hierarquia. Mais abaixo, os xátrias, a dos guerreiros, e assim por diante. Seria este uma condição para o desenvolvimento histórico, a partir das diferenças entre as pessoas, de acordo com a sua origem?

Alguns países desenvolvidos na atualidade alcançaram um patamar de igualdade no que diz respeito a distribuição de renda, formando uma classe hegemônica média. A classe média. Países da Europa ocidental e da Ásia podem ser enquadrados nesta categoria. Principalmente depois da década de 40, com o fim da 2ª. Guerra Mundial, a geografia econômica mundial irá definir um padrão de vida norteado pelo liberalismo nas relações econômicas. Enquanto o capitalismo galopante cria condições de grande concentração de renda, nos países que saem na frente nesta corrida pelo desenvolvimento, como a Alemanha, a Inglaterra, a França, na Ásia, principalmente o Japão, seguido depois pelos chamados na época de “tigres asiáticos’ como a Coréia, Taiwan, Hong Kong, Indonésia, assiste-se de outro lado a derrocada dos países de economia fechada, capitaneada pela antiga União Soviética.

Se o próprio sistema socialista acabou derrotado pelo excesso de planejamento, de uma classe social igualitária sustentado pela crença nas teorias evolucionistas, no mundo capitalista dos países citados teria ocorrido o fortalecimento do ideal liberal da classe média. Todos são iguais economicamente, com oportunidades iguais, oriundos de uma cultura homogenia. As culturas nacionais tiveram uma importância grande neste processo de crescimento. No Japão a cultura de massa tornava qualquer diferença uma discrepância num mundo em que todos oravam pelo trabalho, desenvolvimento e paz. As dores da guerra nunca conseguiram esquecer. Diferente de outras épocas, o Japão aliou-se aos Estados Unidos, o mais potente país de então, principal fornecedor de produtos importados e também consumidor de produtos japoneses.

A vitória capitalista significou a ascensão da classe média, classe trabalhadora e assalariada dos grandes conglomerados econômicos, de serviços e produção de mercadorias. Alimentando uma economia liberal, a classe média também pode usufruir deste crescimento. Entretanto, o capitalismo não funciona apenas da estabilidade de uma classe, que possui poupança e usufruto de bens materiais, necessita de trabalhadores outros, oriundos de uma situação diferente daquela. Necessita de trabalhadores sem muita formação profissional, nem intelectual, carente de recursos e sedento de capitalização. Se possível, uma classe flutuante, sem muito interesse em se estabilizar naquela sociedade, a quem serve, mas não pertence. Assim, as portas de entrada para estes trabalhadores se abrem, ainda que haja choques culturais, pelo menos podem suprir uma falta de trabalhadores daquela natureza.

O que acontece no Japão é também válido para outros países ricos, da Europa, a Austrália, Canadá e Estados Unidos. Aliás, até o Brasil, não sendo tão rico assim, acaba acolhendo imigrante vindos de regiões de conflito como o Haiti e Síria, e pobres como a Bolívia, Senegal, Nigéria, Angola e Congo. No início existe uma resistência por parte dos habitantes locais, com o tempo isso se torna um assunto menor.

Sendo o Brasil um país receptor de imigrantes, o mesmo não acontecia com países da Europa e o Japão. A última vez que o Japão teve acesso a uma invasão de estrangeiros foi durante os séculos XVI, no caso portugueses e espanhóis. Principalmente portugueses. Por longo tempo, o governo de exclusão ao estrangeiro foi mantido o Japão. Nem mesmo a abertura dos portos na metade do século XIX significou o ingresso do estrangeiro a fim de estabelecer-se no país por trabalho e emprego. Este fenômeno aconteceu justamente no período após o milagre japonês na economia.

Os tempos são diferentes, numa maré de incertezas em que a economia de mercado vai se adaptando e criando condições anteriormente impensáveis. Uma economia, para existir, necessita do diferente, criando disparidades sociais e uma cultura cada vez mais mesclada. Afinal, não existe cultura pura, pois ela se constitui sempre do encontro com outras culturas.

Por este viés caminha a economia do mundo, que nada tem a vez com justiça social, num jogo em que todo perigo da derrota estará presente, como uma sombra ameaçadora. Alguns são bons jogadores, outros não gostam de jogos. Para quem é jogador, a emoção pode ser um instrumento de sedução, que ao transcender o jogo econômico, ingressa no jogo político de interesses e cartadas rápidas em que vale mais jogar do que propriamente ganhar. A emoção do jogo torna os gestores políticos, que alimentados pela vaidade, não medem esforços por alcançar o poder.

 

FRANCISCO HANDA

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