CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Viagem ao fundo da paisagem fria

 

 

Nada havia de muito estranho nos postais de final de ano, em que mostravam alguma aldeia dos Alpes, um boneco de neve, a brancura dos flocos de algodão gelados desfazendo-se em pleno ar. Por uma fresta da janela pode enxergar algo não muito diferente. Estava só desta vez, pois os dois outros que ocupavam a mesma sala foram levados para um outro ambiente. A instalação, que chamavam-no de Tangaryo, era usada pelos monges noviços por sete dias antes de serem aceitos como novos alunos do Mosteiro Zuiôji, em Niihama, na ilha de Shikoku.

Era final de inverno, começo de março, em que o frio não tinha ainda desaparecido. Soube através dos antigos colegas de que, quando estes ingressaram, dois noviços tinham abandonado o local. Na maior parte do tempo, estes novatos submetiam-se a um treinamento intensivo de zazen (meditação vazia), além de ler o manual das atividades diárias no mosteiro, bem como as preces feitas durante as atividades diárias. Nada levavam no corpo, além do manto negro, sem nenhuma outra proteção. Podiam ir ao banheiro, deixando a sala, quando aproveitavam para esquentar o corpo no facho de luz solar que inundava o corredor. Não havia muito tempo para isso, pois se alguém o flagrasse nesta atitude poderia receber uma reprimenda.

Lembrou-se que na viagem de Toyama até Okayama, a bordo de um trem na linha Hokuriku, tudo que se via além das janelas era um imenso lençol branco, com algumas manchas, provavelmente de ranchos e alojamento para o gado. Um monge mais velho, com quem se encontrou em Toyama, o acompanhava. Ele tinha sido o jikidô no Mosteiro Eiheiji, na província de Fukui, que podia ser visto mergulhado na brancura através da janela do trem. A função do jikido era zelar pela segurança e o bem estar dos noviços na sala de meditação – o sodo. Nesta mesma época, os noviços de Eiheiji também ingressavam para o treinamento do ango de primavera. Para isso, ele contava o que provavelmente estava acontecendo por lá.

Segundo ele, os noviços, naquele dia, em torno de dez ou um pouco mais, estavam prostrados diante da entrada central do mosteiro. Vestidos a carácter, o koromo suspenso até a altura dos joelho, o ajirogasa (sombreiro) ao lado do corpo, e waraji – sandálias de palha. E estava nevando. Ficavam por horas naquela posição até serem aceitos como noviços. Se alguém quisesse evadir-se, era livre para isso.

Desta forma, retomavam o exemplo de Eka diante da caverna em que encontrava-se Bodhidharma. Por longos nove anos, este último, um monge vindo da Índia para ensinar em Shaolin, e diante da indiferença dos monges daquele, afastou-se e treinou numa caverna próxima. Mas Eka quis ter com ele e pediu que o aceitasse como discípulo. Foi recusado. “Vá embora, nada tenho a lhe ensinar”, disse o santo indiano. Insistiu Eka, ao ponto de, para demonstrar a sua disposição, sacar uma pequena espada e num golpe decepar o braço esquerdo. O sangue escorreu pela neve, tingindo-a de um vermelho intenso.

Ninguém pode confirmar este caso, se verídico, mas mostra a vontade do aluno em aprender o Dharma (Lei), aceitando todas as suas dificuldades, ao ingressar no mosteiro. Mas isso nada se compara com o treinamento em seu interior. Era assim que se sentia aquele monge instalado no Tangaryo. Desconhecia o que estava por vir. Quase na entrada do mosteiro, o monge velho que o acompanhava parou numa loja de alimentos e comprou um

bolinho de arroz – onigiri.

– Saboreie bem este bolinho, sua última refeição antes de entrar – disse sorrindo.

Antes de ser levado até o Tangaryo, o novato teve que passar por uma prova. Por diversas vezes bateu com o martelo de pau numa tábua retangular colocado na parede. Era o sinal de sua chegada. Foi recebido por um monge de olhar baixo e voz pausada e quase inaudível. Enquanto o novato se colocava com os pés no jardim de pedregulho, o outro estava num tablado, num nível mais elevado, o mesmo da superfície da assoalho das instalações.

Aproximou-se e disse:

– O que você está fazendo aqui?

Sabia de alguma forma, que esta pergunta era a comum. Mas a maneira de ser feita, um tanto irônica, causou um mal estar. Talvez fosse proposital. Antes, tinha ensaiado uma resposta e assim, ordenou a frase em japonês e quase hesitante a resposta mal saiu.

– Vim aprender a respeito do budismo.

– Se é desta forma, fique naquele canto,virado para a parede por algum tempo.

O tempo passou, e mal se deu conta de que tinha se passado quase duas horas. Nesse meio tempo, provavelmente muito se passou em sua mente, e ouviu comentários à sua costa. Uma criança visitava o mosteiro, junto com os pais. Estava agitada, e ao ver a cena, sua excitação ficou incontrolável.

– Olhem para aquilo, o que ele está fazendo?

– Como aqui é um mosteiro zen, ele está submetido a uma prova antes do ingresso – explicou o pai, demonstrando saber do assunto.

Enquanto o novato permaneceu no tangaryo, foi obrigado a participar do zazen matinal, da cerimônia matinal, e do desjejum. O almoço era servido numa sala anexo à cozinha, o mesmo acontecendo no jantar. E depois, novamente, retornava ao tangaryo. Durante estes sete dias, não tinha direito ao banho e não cortava o cabelo e nem a barba. De fato, era um novato em processo de aceitação.

Um mês depois, a primavera dava sinais de sua chegada. Em vários pontos do mosteiro, a cerejeira florescia num cor de rosa, que encantava os olhos dos japoneses. Menos daquele monge novato. Ele não era japonês! Numa noite, ele ouviu o sermão de um colega, que tinha sido convidado para treinar a fala em público. Dizia ele de que com o alvorecer da primavera, quando as cerejeira despontava com toda a sua beleza, a vida também mudava.

Ele dominava a palavra. Antes de entrar no mosteiro, tinha estudado ciências jurídicas. Alguma coisa verdadeira existia em sua fala, que de alguma forma comovia os colegas. Ele exagerava na poesia.

No dia seguinte, o mesmo monge tinha deixado o mosteiro, ao fugir na calada da noite. Seria isto, o efeito primavera? Quando as mentes ficam embaralhadas…

 

 

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