CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Yasujiro Ozu no mundo das cores

Em Akibiyori, que recebeu o título em inglês de Late Autumn, algo como Outono tardio, de 1960, faz parte da filmografia de Yasujiro Ozu em sua série colorida. Antes, Ozu teria vencido a etapa do filme mudo para o falado, com Hitori Musuko – Filho Único – de 1936. Grande parte de sua produção foi no cinema mudo, naquilo que pode ser considerado a invenção do cinema japonês. Nascido em 1903, Ozu testemunhou o surgimento do Japão como país industrializado, a inserir-se no capitalismo de um mundo em crise..Assim também o cinema se tornou uma indústria de produção em massa, nada devendo aos demais países produtores da sétima arte.

Esta produção em grande escala, teria sido talvez, o motivo de aperfeiçoamento dos diretores como Yasujiro Ozu.

Ainda que grande parte de sua produção reservou-se ao público japonês, que alternadamente frequentava também as salas de teatro clássico, depois da  Guerra de 45, o ocidente passou a conhecer o cinema japonês. Os temas explorados por Ozu eram triviais, ao mostrar os dramas familiares – pais e filhos, o casamento dos filhos e a aceitação da solidão na idade avançada. Estes assuntos eram comuns na época, constata em o Filho Único. A família moderna é motivo de problematização por parte de Ozu que ao tratar de assuntos tão comuns, somente a linguagem do cinema poderá ser capaz de torná-lo interessante aos olhos dos apreciadores.

Este seria o grande trunfo de Ozu. Contar histórias simples mas capaz de despertar grandes emoções. Por isso, Ozu abusa da técnica da câmera baixa. Quando aparece o cinema colorido, Ozu se torna também um pintor que explora todas as possibilidades das cores. Assim é visto Akibiyori, a quem me debruço ao escrever esta apreciação.

O Japão retratado é o do início da década de 60, quando o país se recuperava e mostrava sinais de que poderia se tornar uma potência econômica. Em1964 aconteceria as Olimpíadas de Tóquio. Nada mais lembrava as agruras do pós guerra, tendo que recuperar-se com a ajuda de seu antes inimigo Estados Unidos,

Três amigos dos tempos de colégio comparecem à cerimônia de sétimo ano do falecimento de um outro amigo em comum. Lá está a viúva com a filha de 24 anos. O papel da viúva é de Setsuko Hara, que em 1949, contracenou em BanshunPrimavera Tardia. A história é semelhante, deste vez Setsuko Hara parece mais envelhecida mas lembra a beleza dos anos de glória.

A filha chama-se Ayako, que chama a atenção dos amigos do pai, que se preocuparam em casá-la com alguém que possa garantir uma família feliz.Este alguém seria um que fosse assalariado e profissão definida numa empresa de porte. Jovens sonhadores que vinham até Tóquio para fazer a vida. O papel de Ayako coube a Yoko Tsukasa. Esta no entanto, figura simpática, não possui a força de Setsuko Hara como em Banshun. Um terceiro personagem irá surgir, a amiga de Ayako, de nome Yuriko, cujo papel foi de Mariko Okada. É justamente esta que cria um ambiente de mudança nos padrões culturais, para uma atitude moderna, a da mulher que mostra a sua força em por ordem numa ‘confusão provocada por excesso de formalidades por parte dos mais velhos.

Como uma filha dedicada, Ayako está preocupada com o bem estar da mãe, deixando de lado a sua própria felicidade. Surge a idéia então, dos três amigos, arrumar um casamento também para a viúva, Akiko Miwa. O felizardo seria Hirayama, um daqueles amigos, também viúvo. Ainda que este se sinta estimulado com a idéia, a proposta nunca chegou a Akiko. Todos falam a respeito deste assunto, despertando ciúmes na filha. Isso não estava nos planos. Era apenas para Ayako corresponder aos galanteios de Goto e casar-se com ele. É quando aparece Yukiko, a amiga de Ayako, que no papel da jovem impetuosa enfrenta os três amigos e exige uma retratação.

Os jogos de cena são sempre explorados com beleza pelo diretor Ozu. Um desses recursos é mostrar o diálogo entre dois personagens. Mostra a fala diretamente com o rosto olhando para a câmera, como falasse também para o público. Cria-se uma intimidade, como que o público fosse o terceiro personagem. Quando isso acontece, o público torna-se parte daquele diálogo, não podendo desviar-se ao dizer eu não sei.

Na cenas de bar, algo mudou muito em comparação com os filmes de dez anos atrás. Ou menos ainda, como em Tokyo Monogatari, de 1953. Todos os detalhes de um lugar tão comum como o bar é levado em consideração. Do lado de fora a câmera focaliza os três amigos, sentados em bancos com a base arredondada e de napa vermelha. Dois bancos próximos estão ocupados, um lugar vago, e outro ocupado. Bastante sugestivo. Ao lado da porta, encostado do lado direito, caixas de Coca-Cola e seu emblema em vermelho. Os amigos não tomam mais saquê, preferem wisky.

O filme encerra-se com o casamento de Ayako com Goto. O casamento é em estilo japonês, pois noiva alguma ficaria bem sem o kimono branco. Eles posam para a foto, que fica eternizada na mente do público. Quanto à viúva, deve suportar as dores da solidão, pois também teve a sua vez. Agora, é a vez dos filhos. Aceitar o destino com resignação é sinal de sabedoria.

 

FRANCISCO HANDA

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