CANTO DO BACURI: Keirokai

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Naquela manhã, Conceição se levantou bem cedinho, arrumou-se com o maior esmero e pediu à empregada que lhe preparasse um café ultra, hiper, mega reforçado. E rápido. Ela tinha muita fome.

Sentada à mesa, Conceição olhou para a empregada e perguntou o que ela ainda fazia ali. Ordenou que a moça se apressasse no banho e caprichasse na roupa também. Logo mais as duas iriam sair.

A moça estranhou, mas, conhecendo a patroa há tantos anos, sabia que de nada adiantaria retrucar. A verdade é que ela já estava avisada há um bom tempo que naquela data, deveria sair acompanhando Conceição e como não se falou mais nisso, ela já quase nem se lembrava.

Minutos depois, a moça se apresentou. Conceição a olhou da ponta dos pés ao alto da cabeça. Sugeriu que caminhasse até a porta e voltasse.  Derrubou um garfo e pediu-lhe que se abaixasse para pegar. Após tudo isso, abriu um grande sorriso e mansamente lhe disse para ela também reforçar a sua alimentação matinal.

Às nove horas, pontualmente, tocam a campainha do interfone. Era o porteiro anunciando a chegada do motorista de taxi. O motorista era um velho conhecido, também ele, há muitos anos prestava serviços a Conceição e sua agora, quase extinta família. Conceição, apesar de descendente de imigrantes japoneses no Brasil, nunca teve muitos parentes. O pai veio só ao Brasil já quase adulto. Era filho único. Trouxe seus pais para cá, depois de alguns anos, quando já estava casado e bem estabelecido. A mãe de Conceição, também não tinha uma grande família. Tinha apenas uma irmã e um irmão bem mais velhos que ela e com poucos filhos. Conceição também teve apenas um irmão e uma irmã alguns anos mais velhos que ela. Ambos já falecidos e sem terem deixado muitos herdeiros. Conceição casou tardiamente e não teve filhos. Apesar de não ter tido seus próprios filhos, Conceição ajudou muitas crianças a sobreviverem. Durante muitos anos trabalhou como enfermeira de recém-nascidos e até hoje, é lembrada por muitas pessoas que creditam sua sobrevivência graças à dedicação e cuidados que receberam de suas mãos.

Com tudo em ordem, Conceição e Júlia, a acompanhante, foram até o taxi que as esperava. O motorista já sabia o destino. Durante muitos anos fez o mesmo trajeto conduzindo os pais de Conceição até o local solicitado. Emocionada, Conceição disse sorrindo: – “oitentinha”. O velho motorista sorriu respondendo, – “estou quase lá” e aproveitou para informar que seu neto assumirá seu lugar no ponto que ele iniciou há quase sessenta anos ali naquela mesma esquina do velho bairro onde antes, as ruas eram de terra batida e as casas eram rodeadas por quintais e jardins. Com ele está tudo bem, o médico o autorizou continuar trabalhando durante o dia, mas agora quer desfrutar um pouco da companhia dos bisnetinhos que vem chegando.

Percebendo a curiosidade de sua acompanhante, Conceição explicou que este ano fará oitenta anos e, daqui para frente, se tudo caminhar bem, anualmente fará este passeio festivo até o templo. A moça nada disse. Conceição pensou na juventude da moça e na sua incapacidade natural de compreender o significado desta homenagem.  Prometeu a si mesma, fará como seus pais fizeram e enquanto estiver viva, na medida do possível, participará desta festa que os mais jovens do templo promovem para homenagear as pessoas com mais de oitenta anos.

Estar viva e bem de saúde, é uma bênção. Agora ela compreende. Nostálgica, parece ouvir a mãe dizendo: “só mesmo a passagem do tempo para nos fazer compreender o significado de algumas pequenas coisas”.

 

MARI SATAKE

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