CANTO DO BACURI > Mari Satake: Mottainai

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Mottainai

 

A mãe dizia: Mottainai.

Já bastava para saber que ela se referia ao resto de comida que tentavam deixar esquecido no prato. Minutos depois era para a água que deixavam escorrendo na torneira enquanto a louça era ensaboada. Não precisava ela dizer mais nada. Sabiam que a comida no prato era para ser comida todinha, sem deixar um único grão de arroz esquecido e que a água não era para ficar escorrendo enquanto a louça era ensaboada.

Tantos mottainai que se habituaram a ouvir. A dizer também.

Anos mais tarde, mottainai era a sobrinha, filha mais velha do irmão, ter que casar aos dezessete anos. A mãe ficou abalada. Mottainai! Menina tão novinha, com bom potencial para se desenvolver nos estudos. E grávida!

Para suas filhas não queria aquilo. Quem engravidou antes da hora foi a sobrinha, mas a mãe não perdeu a oportunidade de falar muito com suas filhas. Jamais perdoaria se alguma das três lhe trouxesse esse desgosto para casa. Não queria nenhuma das filhas dependente de marido. Suas filhas tinham que estudar antes, se definir numa profissão. Casamento só depois e com alguém que ela aprovasse. E para mostrar que tinha razão, vivia citando alguns exemplos de filhas de suas conhecidas que fizeram escolhas que achava erradas. Fulana era professora e se enrabichou com um taxista grosseiro. Beltrana é advogada, casou com um iletrado que vive bêbado caindo pelas ruas. Eram exemplos de mulheres mottainai para aqueles trastes que tinham arranjado.

Acompanhou as meninas de perto. Não deu mole. Dava liberdade para elas irem aos bailinhos dos sábados, aos cinemas do domingo, mas tudo ali, debaixo do seu controle. Tinham hora para sair, hora para voltar e sempre somente na companhia das amigas cujas famílias ela bem conhecia.

Quando chegou a hora das duas mais velhas irem para a universidade, diferente de muitas das mães, queria que as filhas fossem estudar na capital, teriam mais recursos para se aprimorarem. Dali para frente, as meninas viveriam longe de suas vistas, porém tinha certeza que suas filhas teriam juízo suficiente para não cometerem nenhum deslize. Perto da mãe continuou a mais nova, também até a hora da universidade.

Tudo certo. Depois dos estudos, o trabalho. A vida profissional. A mãe na cidade distante, mas sempre atenta, acompanhando. Assim foi com as três.

Há tanto tempo! Da mãe, as lembranças.

Ela vê o cartaz que o palestrante trouxe de longe. Reconhece os caracteres em hiraganá. Mottainai. Mottainai. Imediatamente, lembra-se da mãe, das irmãs, da infância, dos anos de convivência com a mãe. Ensinando. Mottainai.

Pensa na origem da palavra. De imediato, sabe apenas que nai indica inexistência, mottai, ela desconhece. No dicionário, encontra apenas um significado, importância. Lembra-se de ter ouvido alguém falar da origem ligada ao budismo. Não encontra textos explicativos.

Uma simples palavra, um conceito tão abrangente.

Ela se pergunta sobre o que tem feito de sua vida. A mãe diria mottainai?

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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