CANTO DO BACURI > Mari Satake: Solidão? | Seu Jorge e Dona Aika | Dona Emilia e Seu Naka | Lurdinha não quis a mesma vida da mãe | Tadeu também, nunca se casou

canto-do-bacuri-maki

 

Solidão?

 

Lica é casada. Logo que se casou, deixou o emprego para se dedicar à família que queria ter bem grande. Não demorou muito e os filhos foram chegando. Teve sete. Um filho a cada dois anos em média.

O marido é um workaholic desde sempre. Primeiro, era porque precisava garantir o leite das crianças. Depois, para o pagamento das mensalidades escolares caras. Das roupas e calçados de marca que fazia questão que família vestisse. Dos carros que sempre precisa trocar anualmente. Das joias. De Lica e das amantes.

Dos filhos que tiveram, nenhum vive na cidade. Deles, apenas o mais novo ainda os visita regularmente.

Lica há anos tenta, mas não consegue. Não nasceu para ser dondoca.

Agora, Lica é a mais nova carola de Padre Moacir. Duas vezes por semana, chega com o motorista e o carro cheio de ingredientes para o sopão dos despossuídos da freguesia do padre.

 

 


 

 

Seu Jorge e dona Aika

 

Com o trabalho na pequena quitandinha de seu Jorge garantiram os estudos dos quatro filhos. Um engenheiro, um advogado, uma médica e o caçula da família. Com este, não houve jeito. Nem rezas da mãe e nem ameaças do pai. Não dava para os estudos. E é o único que diariamente vai ver pai e mãe que não se falam há anos, mas insistem em continuar morando juntos na velha casa ao lado da antiga quitanda.

Hoje, supermercado.

 


 

 

 

Dona Emília e seu Naka.

 

Ela, bancária. Ele, advogado. Dois filhos. Dois netos.

Dona Emília se aposentou logo que fez cinquenta anos. Seu Naka continuou trabalhando até os setenta. Trabalhou direto até poucos meses atrás.

Dona Emília já tinha sua rotina de aposentada. Seu Naka está se adaptando. Dona Emília está se readaptando a uma nova rotina. Dois aposentados na mesma casa.

 

 


 

 

Lurdinha não quis a mesma vida da mãe.

 

Passou longe do casamento.

Estudou muito. Trabalhou muito. Fez carreira na universidade. Durante anos, orientou muitos jovens em seus estudos. Com o tempo, começou a se desencantar com a garotada. Aos poucos, foi deixando de aceitar novos orientandos.

Aposentou-se da universidade.

Tem novo projeto. Está se preparando. Lurdinha vai tentar viver durante um tempo no alto da montanha.

Sozinha.

Desde jovem, Lurdinha tinha um sonho. Queria andar pelos campos, observando e pintando a natureza. Chegou a hora.

 

 


 

 

Tadeu também,
nunca se casou.

 

Sonhava desenhar imensos palacetes rodeados por majestosos jardins floridos. Até fez alguma coisa logo que saiu da faculdade.

Não foi muito além. O pai morreu e Tadeu decidiu cuidar da fábrica de chapéu que herdou. Da fábrica saíram chapéus que ganharam o mundo.

Muitos anos depois, os chapéus começaram a encalhar. A fábrica a encolher. Os empregados foram envelhecendo e morrendo.

Tadeu decidiu fechar a fábrica. Vendeu tudo. Até a casa onde morou por toda a vida.

Quer vida nova. Nada de chapéu. Nada de arquitetura.

Diz que vai apenas viver.

 

 

MARI SATAKE

MARI SATAKE

marisatake@yahoo.com.br
MARI SATAKE

Últimos posts por MARI SATAKE (exibir todos)

     

     

    Related Post

    ERIKA TAMURA: Qual o segredo do sucesso?   Escuto muitas pessoas falando que o segredo do sucesso é sorte. Eu diria que o segredo do sucesso é um conjunto de coisas que combinadas des...
    AKIRA SAITO: KAIZEN – MELHORIA/EVOLUÇÃO “Todo e qualquer estado deve ser sempre motivo para evoluir”   Um dos conceitos mais importantes do Budo e da própria Cultura Japonesa como u...
    BEM ESTAR: Seu Modo de viver Transformei minha vida em vida de lamentações, em alerta ao medo incontinenti, palpitações constantes, olhares voltados só no retrovisor,  observando ...
    ERIKA TAMURA: COMIGRAR (Conferência Nacional sobre...   No dia 30 de maio ao dia 1 de junho de 2014, foi realizado em São Paulo o COMIGRAR (Conferência Nacional sobre Migrações e Refúgio). Infe...

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *