CANTO DO BACURI > Mari Satake: A visita

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A visita

 

Ali costumava nada acontecer para alterar a rotina da casa. De manhã, as brigas costumeiras dos mais velhos na fila do banheiro. O pai sentado na mesa com o jornal dobrado ao lado da xícara, lendo e comentando os absurdos dos acontecimentos. A mãe atarefada preparando a merenda dos irmãos. Minutos de balbúrdia até saírem todos. Depois, o silencio. Ela, a avó e a mãe.

Da avó, ela pouco se lembra. A avó vivia a maior parte do tempo fechada em seu quarto com seus livros ou pincéis e papel ou então, com suas agulhas e fios.  Entrar no quarto, ela nunca entrou. A avó só permitia a entrada da irmã mais velha. Ela sabia o que tinha lá dentro porque a irmã contava. A irmã sempre contava sobre o quarto da avó e as coisas que conversavam lá dentro. A ela só restava esperar pela irmã. Novidade na casa, sempre girava em torno da avó. Era sempre dela a palavra final.

Num certo dia, nem era tempo de Natal e a avó anunciou que precisavam todos se empenhar na limpeza da casa e na poda das plantas do quintal e do jardim. Parecia uma operação de guerra, os irmãos chegavam da escola e logo depois das obrigações costumeiras, estavam todos a postos, munidos de vassouras, pás, espátulas e etc. Até pintura nova a casa ganhou. À mãe, coube preparar as roupas novas dos cinco filhos. Foram dias e noites trabalhando sob o comando e vigilância atenta da avó. Naqueles dias, a avó passava a maior parte do tempo fora de seu quarto. Fiscalizando e dando ordens à garotada da casa.

Ela, pequena que era, segundo a avó, mais atrapalhava que ajudava. Para mantê-la afastada, a avó lhe dava pequenas tiras de tecido coloridos para emendar uma na outra. Com as tiras emendadas a avó faria um tapete para as bonecas da menina.

Aquela movimentação toda acontecia não apenas em sua casa, mas também em algumas outras casas vizinhas.

Ela ouvia os pais conversando com a avó e quase nada entendia. Foi consultar a irmã. A irmã lhe explicou e ela achou tudo muito estranho. Uma visita que nem era da família do tio dela e nem de ninguém dali perto e todo mundo esperando daquele jeito!? Ficou fascinada com o poder que a visita devia ter. Só podia ser alguém muito poderoso para tirar a avó de seu quarto e ainda, fazê-la se abalar daquele jeito.

Sendo assim, também ela acabou se contagiando com a expectativa. E na manhã do esperado dia, ela que sempre fazia birra com a mãe, querendo esticar o seu tempo vestida com o pijama, tratou logo de concorrer com os irmãos na fila do banheiro. Teve pressa para vestir a sua roupa nova. Não adiantou os mais velhos lhe dizerem que a visita aconteceria só muitas horas mais tarde. Ela quis logo cedo, vestir sua roupa nova. De short vermelho com blusa branca, meias brancas com sapatinhos vermelho e branco ela ficou à espera.  Foi uma longa espera.

No terraço da casa, desde muito cedo, ficaram ela e a avó de prontidão com suas bandeiras nas mãos. Mais tarde, aos poucos, a rua foi ficando cheia de gente. A família veio toda para o terraço, amigos que moravam em outras ruas foram chegando. Todos à espera, também com bandeiras nas mãos. Longa espera para um rápido desfile.

Passado o cortejo, na rua, as pessoas seguiram todas para seu destino. E, dentro da casa, no centro do quintal, uma enorme fogueira começava a estalar suas primeiras faíscas. Era dia de São João e pela primeira vez, a festa de São João da vizinhança aconteceu no quintal de sua casa. Naquele dia, até a avó dançou a quadrilha.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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