CANTO DO BACURI > Mari Satake: Fragmentos

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Fragmentos

 

Não bastasse um, agora temos dois.

Toquinho já apareceu por aqui. É aquele serzinho que ficou órfão e foi adotado pelos tios que o queriam doutor. Os tios fizeram de tudo para que o garoto estudasse, mas ele só fazia fugir da escola. Adulto, virou pequeno agricultor, se entupiu de filhos. Os filhos mais velhos foram trabalhar no Japão. Ele adoeceu, os filhos voltaram. Ele superou a doença, se aposentou e passou a se ocupar da mulher e dos netos.

Muitos anos depois, Toquinho cismou que era hora de fazer um tour pelas terras onde habitou quando criança e jovem. Desta vez, chegou acompanhado do filho do meio com sua nova família e seu novo agregado, Toquinho II.

Toquinho II é seu bisneto. Ao apresentar o garotinho, Toquinho fala de sua triste perda. O neto mais velho, aquele que nunca o largava, um dia voltando do trabalho após uma curva, foi colhido por um caminhão em alta velocidade e que trafegava na contramão. Do neto e esposa restou o pequeno que passava o dia na escolinha enquanto os pais trabalhavam.

Toquinho II é garotinho ainda. Está com dez anos. Com orgulho, o bisavô conta que o garotinho ao contrário dele, não foge da escola.

Toquinho diz que resolveu empreender esta viagem agora, para mostrar sua história ao bisneto. Acha importante que o garoto saiba de sua história e não repita os mesmos erros que ele.

 

 


 

 

 

Orgulhosa, ela contou.

Há muitos anos atrás, a mãe foi convidada para fazer os arranjos florais para ornamentar o imenso salão onde seria recepcionado o príncipe, o pai.

Ela, sendo a filha mais velha e aprendiz de seu ofício foi designada para acompanhar o trabalho da mãe, desde o início. Concepção, busca dos vasos e acessórios, buscas e compras das folhagens, galhos e flores. Horas e horas ao lado da mãe que compunha seus arranjos.

Agora, tantos anos mais tarde. Em missão diplomática, o país receberá novamente o príncipe. Agora, o filho. E ela será a responsável pela confecção dos arranjos florais que ornamentarão os ambientes por onde circularão o príncipe e sua comitiva.

Sua mãe já é morta. Ela, já tem bem mais idade que a mãe tinha naqueles dias. E, no entanto, parece reviver o mesmo nervosismo daqueles dias. E ela se vê imensamente só. Sem a mãe, sem uma filha que tivesse também abraçado o seu ofício, sem nenhum aluno que a acompanhe. Ela retruca consigo mesma “ e daí? No final, como sempre, tudo ficará perfeito.”

 

 


 

 

Suzie era bastante agitada, tinha pressa de viver. Novinha, antes dos quinze anos já namorava firme e dizia querer casar e ter filho logo. Não casou, mas teve filho logo. Teve uma filha.

Depois que teve a filha, largou os estudos. Não fez faculdade como seus irmãos. Cuidou da sua nenezinha e logo que a menininha começou a frequentar o berçário, Suzie começou a ajudar o pai na loja. No começo foi difícil, mas logo tomou gosto pela coisa. Com o tempo, foi ampliando o negócio do pai. Tornou-se uma bem sucedida empresária na cidade do interior.

Muitos anos depois, reencontro Suzie. Está morando em São Paulo. Dando risadas, ela diz. Foi expulsa de sua casa e de sua cidade. Assim como ela, também a filha se tornou mãe muito nova. Porém, a filha, teve quatro filhos. Rindo, ela completa, todos eles em idade de procriar.

Sem vocação para ser bisavó, resolveu abrir uma filial bem longe de sua cidade natal.

 

 

 

MARI SATAKE

MARI SATAKE

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