CANTO DO BACURI > Mari Satake: An

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An

 

Por aqui, ganhou o título Sabor da Vida. O novo filme de Naomi Kawase em cartaz na cidade.

Sentaro trabalha num pequeno comércio onde serve dorayakis que ele mesmo produz. Localizado num ponto de bom movimento, coloca um cartaz anunciando que necessita de um auxiliar. Tokue, uma singular senhora de idade avançada se candidata, dizendo que trabalhar naquele tipo de atividade sempre foi o sonho de sua vida. Sentaro a rejeita e lhe oferece um de seus doces como cortesia. Sentada na pequena mesa observando o que acontece, está Wakana, jovem em idade escolar que vive seu drama: o ano escolar está terminando e se depender de sua mãe, deverá deixar os estudos para começar a trabalhar em breve.

Dias mais tarde, Tokue volta à loja de Sentaro. Sentaro permanece irredutível em não empregá-la dizendo que é um trabalho pesado, ela retruca dizendo que faz isso há cinquenta anos e lhe entrega um pequeno embrulho pedindo que ele experimente. A primeira reação de Sentaro é desprezar o pote. Reação que é logo reparada, Sentaro corre à lixeira e resgata o embrulho que lhe fora entregue. Desconfiado, abre o pote e com o dedo mesmo, pega um pouco do seu conteúdo. Prova. E, como para se certificar, come novamente e, novamente. Talvez, ele nunca tivesse experimentado “an” tão saboroso assim. Mais tarde, comenta com Wakana sobre o saboroso “an” que ganhara de Tokue. Wakana faz suas considerações e opina que se ela deseja tanto trabalhar para ele, porque não aceitá-la?

Sentaro acaba revendo sua posição e quando Tokue retorna à loja, Sentaro agradece pelo saboroso doce e diz que ela poderá vir trabalhar para ele. Agradecida, ela diz que virá na manhã seguinte antes mesmo do sol despontar no céu.

No exíguo espaço de trabalho, os dois começam a trabalhar. Ele é o chefe, assim ela respeitosamente se dirige a ele. Mas, ela é quem comanda as ações e ensina o chefe. Ensina não apenas a lidar com os feijões azukis que se transformarão no delicioso “an” mas também a rever a forma de lidar com a vida. Vida que, ao longo do filme vão se revelando amargas, duras na realidade de cada um dos três.

O sucesso dos dorayakis com o novo recheio é imediato. Filas começam a se formar do lado de fora da loja, toda a produção é vendida. Todos ali felizes com os novos dorayakis.

Infeliz ou felizmente, não demora muito para o pesado fardo da realidade se anunciar com a chegada da mulher do dono da loja e seus totós de estimação.  Ela pergunta a Sentaro se ele sabe da origem de Tokue, se conhece o endereço onde mora e em seguida, dispara. Sentaro deve favores e também dinheiro a seu marido, portanto, ela exige que Sentaro demita Tokue.

Por outro lado, também Wakana pesquisa sobre a doença que abatera Tokue quando menina ainda. E mesmo depois de tantos anos da descoberta do remédio contra a doença, os antigos portadores continuam segregados e estigmatizados pela sociedade japonesa.

Se o sucesso dos dorayakis foi imediato, também o esvaziamento da loja aconteceu de um dia para outro. Tokue arruma suas coisas e não volta no dia sguinte.

Sentaro se culpa pela partida de Tokue, julga que deveria tê-la protegido. Sentindo-se arrasado desabafa com a jovem Wakana que chegara anunciando que acabou de fugir de sua casa e precisa de um lugar e alguém que cuide de seu canário. Tokue havia lhe dito que ela ou Sentaro poderiam cuidar do canário. Sentaro também mora em apartamento e animais são proibidos. Decidem então procurar Tokue no asilo onde ela mora.

No asilo encontram Tokue enfraquecida mas, ainda com suas sábias e doces palavras.

A vida e a realidade cobra ação das pessoas. Sentaro outra vez recebe a visita da mulher do proprietário. Desta vez, junto dos totós traz seu sobrinho e ela o apresenta a Sentaro como o novo chefe dos okomiyakis que eles passarão a vender. Pede a Sentaro que receba bem o novo chefe responsável pelos okonomiyakis. Ele nada diz.

Se no início, víamos um Sentaro calado e sério confinado na minúscula loja do patrão, vemos no final um homem forte e sorridente anunciando e perguntando quem vai querer dorayaki em meio ao imenso parque florido que Tokue também o ensinara a enxergar.

O filme é uma adaptação do livro “An” de Durian Sukegawa, publicado em 2013, ainda não traduzido para a língua portuguesa.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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