CANTO DO BACURI > MARI SATAKE: O pé

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O pé

 

Ai o meu pé! Sim! O mesmo pé de sempre. Aquele que nasceu com o osso defeituoso e resolveu parar de se desenvolver para acompanhar o resto do corpo. Só fui descobrir isso, numa daquelas graves crises de dores. Nada grave, dizia o médico. Precisava apenas cuidar das micro-fraturas e obedecer às limitações impostas pela natureza. Daquela vez, fiquei alguns bons meses em tratamento médico e castigo. Não podia andar muito e nem carregar peso nenhum quase. Era no tempo em que andava com alguns amigos e costumávamos viajar bastante. Éramos jovens adultos vivendo a adolescência tardia com mochilões pelas trilhas e rotas que um ou outro inventava de querer desbravar. Bons tempos aqueles. Aos trancos e barrancos caminhávamos.

Anos mais tarde, já em outra. Os amigos, cada um em suas jornadas individuais e eu, na minha batalha insana, num daqueles dias que corria feito uma louca para chegar sabe-se lá onde. Em casa, quando já poderia voltar a atenção para meus movimentos e pensamentos, eis que CRASH!!!! Por pura falta de atenção e inteligência, estatelo os ossos do pé na dura cadeira de pau ferro. Aquela talvez tenha sido a maior dor física que já suportei em minha vida. Quase instantaneamente à dor, o medo. Não havia como colocar o pé no chão. Como um saci lesado, providenciei um táxi e corri ao pronto socorro. Fratura. Depois do diagnóstico, nada a fazer além de cuidar da recuperação dos ossos. Longos meses de repouso. Longos meses recebendo os cuidados de outros. Sorte que havia quem me socorresse. Eterna gratidão às pessoas que estiveram ao meu lado.

Depois disso, tudo leva a crer que passei a cuidar bem melhor do meu pé. Sapatos confortáveis e anatômicos. Nenhum aperto. Nada de carregar peso alem do que posso. Cuidado com a alimentação para não ficar com excesso de peso.  E assim vamos fazendo.

Mas nem tudo caminha como reza a cartilha. Há a sapatilha bonita e colorida para combinar com o vestido novo, só por algumas horinhas. A falta de alguém para ajudar a carregar o peso em excesso que resolvi carregar no porta-malas do carro, o excesso de compras num daqueles passeios ao mercadão central da cidade. De pouquinho em pouquinho, o pé vai suportando. De abuso em abuso ele vai reclamando e a dona do pé, insana, no dia seguinte por já não sentir tanto incômodo, acha que pode calçar a sapatilha colorida novamente. Depois, acha que pode caminhar descalça quilômetros e quilômetros descalça pelas areias das praias, só porque o incômodo passa quando se repousa por algumas horas. Assim vai até que o pé resolve gritar novamente.

Agora, cá estou eu. De molho. Corpo e mente.

Para ajudar, a droga receitada é uma droga! O corpo rejeitou e se encheu de coceiras. Suores e coceiras pelo corpo todo e, para ajudar tem o calor insuportável destes dias. Alívio apenas embaixo da água morna, quase fria do chuveiro. Parei com as drogas. Melhor manquitolar do que me coçar e ferir a pele.

Incrível, depois de 36 horas sem a droga, hoje já não sobem os calorões seguidos da insuportável coceira. O pé ainda dói, mas o movimento já é um pouco mais veloz. Manquitolando ainda.

Amanhã é dia de bloco.

Vai passar. Tudo passa nesta vida, até a nossa.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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