CANTO DO BACURI > Mari Satake: A mulher que desapareceu

canto-do-bacuri-maki

 

A mulher que desapareceu

Nasceu no sertão da Paraíba. Com a mãe e cinco irmãos veio para São Paulo muito criança ainda. Devia ter em torno de cinco anos, ela dizia. Em São Paulo, a mãe e as crianças logo foram abrigadas pela família que as esperava. Não demorou muito para os filhos maiores serem encaminhados para trabalharem em casa de outras famílias.  Ela, por ser muito pequena, ficou com a mãe. Ficaram bem abrigadas ali por muitos anos. A mãe doméstica na casa e ela, a filha pequena.

Quando chegou a idade de ir para escola, os patrões fizeram questão que a mãe a matriculasse na escola pública mais próxima da casa. Frequentou a escola primária e mais tarde, o ginasial que conseguiu completar com muito sacrifício no horário noturno.

O primário ela frequentava no período diurno, mas assim que chegava a casa, trocava o uniforme da escola pelo uniforme de aprendiz. Orgulhosa, vestia o pequeno uniforme que havia sido confeccionado para seu corpo pequeno.

Com os afazeres domésticos, a menina não demonstrava a menor afinidade. Pedia à mãe que falasse aos patrões, ela queria aprender a mexer nas linhas e agulhas da oficina do patrão. A mãe relutava. Tinha receio de serem postas para fora da casa. Percebendo que a mãe não pediria aos patrões, a menina resolveu ela mesma, ir falar com o patrão antes de voltar da escola para casa. O patrão achou graça no pedido. Falou que resolveria o assunto com a patroa e com a mãe da menina.

Assim, aos oito anos de idade, a menina passou a frequentar a oficina de alfaiate do patrão. Ali, ela aprendeu de tudo. No início, passava as tardes aprendendo os primeiros pontos com a agulha, fazia pequenos serviços como colocar em ordem nas prateleiras os tecidos e as linhas. Era a pequena ajudante dos mais velhos. À medida que crescia, foi recebendo pequenas responsabilidades. Terminado o curso primário, matriculou-se no curso ginasial noturno passando a trabalhar em período integral na oficina. Já nessa época, era capaz de fazer peças simples do vestuário da mãe e das irmãs.

Ficou na oficina até os quinze anos, época em que a mãe faleceu.

A morte da mãe foi um choque para a menina. Ficou um tempo sem reagir. Sem trabalhar, sem conversar com quase ninguém. Viveu por alguns meses sendo cuidada pela irmã mais velha. Aos poucos, fazendo roupas de bonecas para as sobrinhas, foi retomando seu gosto pela costura.

Voltou a trabalhar, conheceu um rapaz com quem se casou e teve seus filhos. Sempre trabalhando muito para manter a casa e os filhos na escola, até eles se encaminharem numa profissão. O marido há muitos anos se aposentou por invalidez. Os filhos já há muitos anos seguem suas vidas, longe dela.

Ela, desde que se aposentou, passou a cuidar de cachorro. Cuida do cachorro como se cuidasse de um filho. Nos últimos tempos, era comum vê-la andando pelas ruas do bairro com uma enorme sacola de viagem, sempre acompanhada de seu pequeno cachorro. Quando indagada para onde estava indo, dizia que para sua casa no Rancho do Paiol. Andava um pouco e logo retornava. Ela e o cachorro.

Ultimamente, o cachorro anda só. Choramingando pelas ruas.

Da última vez que a viram, ela estava só com sua enorme sacola de viagem. Passou a tarde, passou a noite e ela não voltou.  Passou o dia e a noite seguinte e ninguém mais a viu. Agora todos a esperam. E se perguntam, por onde andará?

 

 

MARI SATAKE

MARI SATAKE

marisatake@yahoo.com.br
MARI SATAKE

Últimos posts por MARI SATAKE (exibir todos)

     

    Related Post

    HAICAI BRASILEIRO   O Jornal Nippak publica aqui os haicais enviados pelos leitores. Haicai é um tipo de poema que se originou no Japão. Seu maior expoente é Ma...
    SILVIO SANO > NIPÔNICA: Opa?! Até no Mundial de Ka... Foi realizado no final de semana passado, em Vancouver (Canadá), o 14º Campeonato Mundial de Karaokê da KWC (Karaoke World Championships). Três dias d...
    SILVIO SANO: Desde Garotinho?! Não, filho… d... Pois é, foi a piada da semana e que, de tão difundida, nem precisa ser destrinchada por inteiro. Todos a conhecem. Trouxe-a apenas para ilustrar minha...
    SHIGUYUKI YOSHIKUNI: Diretoria Executiva da ABCEL ...   Presidente: Akio Matsuura. Vices: Yuji Oota (Planejamento e Orçamento), Ciro Shizuo Kumazawa (Esporte e Lazer), Yukio Bosso (Sócio Cultural)...

    Faça seu comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *