CANTO DO BACURI > Mari Satake: Voltar e ficar?

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Voltar e ficar?

 

Ele ficou longos anos fora do país.

Logo que ali chegou, seu notebook, celular, tablet e câmeras foram lacrados e lhe seriam devolvidos após o primeiro ano de sua permanência ou se algo desse errado e não mais pudesse permanecer antes de completar o ano. Partiu já sabendo que isso aconteceria assim que ingressasse no centro de treinamento. Os três primeiros meses seriam de confinamento quase total. Ele com ele mesmo e as paredes. Contato com o outro, apenas nos breves instantes de receber o alimento da pequena ração diária fracionada para as três refeições do dia. A cota era sempre a mesma, nada a mais, nada a menos. Sem palavras. A comunicação se dava apenas pelos rigorosos movimentos gestuais. Tudo também rigorosamente contido. As palavras ditas eram das inúmeras oferendas e orações que ele apenas tentava reproduzir o som sem quase nada entender. Os dias iniciais foram cruéis, as horas se arrastavam. Contava o tempo pela refeição que recebia. Vivia cada instante pela refeição que viria logo mais. A cada refeição recebida, uma fração da primeira etapa de sua longa jornada. Minutos, horas, dias. A cada noite, temia pelo dia seguinte. Temia por ele mesmo. Tinha medo de surtar. Ouvira falar de tantos casos de pessoas aparentemente tranquilas e que ali ou em algum outro centro de treinamento do gênero, tiveram seus surtos. Sua amiga, defensora dos animais domésticos abandonados, não teve um ataque de fúria numa noite e quase retalhou o rosto da colega que dormia ao lado? E aquele outro que passou a gritar que era um pássaro e sairia voando? Acreditou tanto que se jogou janela abaixo. Sorte que embaixo da janela tinha muitos arbustos entrelaçados que suportaram seu peso. Só foi encontrado horas mais tarde. Foi levado direto para a enfermaria e da enfermaria foi reconduzido ao seu país de origem. Essas histórias e tantas outras iam e vinham à sua mente. Às vezes, achava que conseguia enxergar as imagens na parede à sua frente. Pensava ver filmes e mais filmes. Assim que saísse de lá escreveria os roteiros dos filmes que nunca conseguiu rodar.

Não sabe como, mas conseguiu sobreviver aos noventa dias. Foi convidado para a etapa seguinte de sua jornada. Teve autorização para telefonar aos familiares, teve também autorização para sair, passear pelos arredores.

Saiu. E só do telefone publico, ligou para casa. Quando ouviu a voz da mãe, ele desabou. Chorou todas as lágrimas que não havia conseguido nos noventa dias anteriores. Chorou até não poder mais. A mãe cada vez mais aflita, sem nada entender, colocou o pai na linha. E ele só chorava. Não deu dois minutos e o vozeirão do pai o trouxe à realidade. Que espécie de homem era esse filho que só chorava? Ele que se aprumasse ou o pai pegaria o primeiro voo para pegá-lo pelo cangote e liquidaria aquele assunto naquela semana mesmo. Ele se aprumou. Perambulou por alguns dias, sem saber se ficava ou corria.

Não correu. Ficou. Foi ficando. A cada dia, um aprendizado novo. Foi tomando gosto. Também, foi ganhando o respeito dos colegas e orientadores. À medida que avançava em seus estudos, novos desafios iam se apresentando e a volta ao seu país era sempre deixada para mais tarde. E assim se passaram oito, quase nove anos.

Ano passado, decidiu que voltaria ainda no primeiro semestre do ano vindouro. Voltou.

Passada a euforia do reencontro com os familiares e amigos queridos, ele tenta se readaptar ao país. Mal chegou e já duvida se voltar foi a melhor opção.

Ele anda pelas ruas da cidade e se assusta. Tem a impressão que hoje a cidade tem mais moradores nas ruas que antes, quando partiu. Conversa com os amigos que por aqui continuaram em seus postos de trabalho e não os vê animados. Pelo contrário, sente certa desesperança na fala de quase todos. Temem pelo futuro. Assiste aos noticiários da tevê e se assusta com os apresentadores robotizados, por sinal, os mesmos de anos atrás em sua grande maioria. Ouve os noticiários. Incrédulo com o que escuta, pensa que tanto tempo longe da língua pátria, acabou atrapalhando a sua capacidade de entendimento. Busca os jornais. Não. Sua capacidade de entendimento não está afetada. Afetado parece estar o país, a sua classe dirigente.

Novamente ele tem medo. Agora, em seu próprio país. De onde saiu orgulhoso, recém-formado em universidade pública.  É da geração que votou pela primeira vez num ex-operário e o elegeu Presidente da República. Seus anos na universidade foram tão cheios de sonhos e esperanças. Saiu em busca do aprimoramento de si, de novos conhecimentos.

Voltou e não gosta do que vê.

Sinais de um terrível retrocesso?

 

 

MARI SATAKE

MARI SATAKE

marisatake@yahoo.com.br
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