CANTO DO BACURI > Mari Satake: Sala de espera

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Sala de espera

 

Ali sentado na recepção com as roupas e os calçados surrados, poderia bem passar por morador de rua. Além da bolsa a tiracolo, segurava uma enorme sacola de plástico lotada de coisas.

A doutora em pé calmamente falava com ele. Ele queria voltar ainda naquela semana. Não, a doutora já não tinha vaga em sua agenda. Estava meio atarefada demais. Irônico, ele retrucou, “ainda bem que não me disse que está meia atarefada”. Falou que não suporta ouvir certos erros que as pessoas cometem cada vez mais. Em seguida, mesmo já tendo seu próximo horário agendado para a semana seguinte, ele parecia não ter pressa nenhuma em sair. Continuou sentado, falando com a doutora. Compulsivamente, ele falava, respondia, falava. A doutora observava atenta. Por fim, ele se levantou. Imponente com sua sólida bengala que mais parecia um escudo de proteção, caminhou em direção à saída, arrastando suas pernas, puxando seu corpo.

Ao se despedir, prometeu voltar, “se estiver vivo até lá”

 

 


 

 

De repente, o estridente som da campainha. A recepcionista amuada abre a porta.

Fazendo estardalhaço vai entrando e querendo saber se a doutora vai demorar. Ele tem pressa, tem milhões, zilhões de coisas a fazer, pessoas dependem dele.

A recepcionista olha a agenda e comunica: – “o senhor chegou quarenta minutos adiantado”.

Ele jura que não, elas é que se enganaram e fizeram trapaça com o horário dele. Diz que não pode perder a viagem, viajou horas para se tratar com a doutora. Desta vez, tudo bem! Está com fome então, vai até ali do lado tomar um lanche.

Horas mais tarde, a sala de espera está vazia. Já não há pacientes agendados. A recepcionista fez suas últimas arrumações e foi embora.  Resta a doutora, se preparando para sair também.

A noite começa a cair. Soa a campainha estridente. Do lado de fora, o vozeirão chamando pelo nome da doutora, cantarolando.

Traz chocolate quente, coxinha, esfiha e diz que pelo horário, a doutora deve estar com fome. Agora ele não tem pressa, a doutora pode comer sossegada, escovar os dentes e depois cuidar dele.

A doutora agradece pelo lanche e o encaminha para sala. Hoje o atenderá, fora de seu horário marcado. Pede a ele para prestar atenção no horário da próxima vez. Ele diz que sim. E fica dizendo que a doutora não sabe o que está perdendo ao não comer o lanche enquanto o chocolate e os salgados estão quentes.

 


 

 

 

Chegam pai, mãe, filhos e a avó.

Enquanto esperam, o pai faz recomendações a todos. Quer saber se todos entenderam como devem fazer.

O menorzinho diz que já sabe tudo.  Direitinho. Na sequência, vai repetindo as recomendações feitas pelo pai.

A doutora chama o pai. Do lado de fora, o menor se impacienta. Pergunta quanto tempo falta. Ele não gosta de ficar ali sem os seus brinquedos. A mãe pede paciência, tenta entreter o menino contando uma estória. Ele se cansa, senta ao lado da avó. A avó conversa com ele, ficam  os dois conversando baixinho, brincando com as mãos. A avó aponta uma caixa embaixo do aparador, o garoto pede para a recepcionista.

Sim. A caixa é das crianças. Tem um monte de brinquedos. Pode mexer. Ele só precisa prometer que antes de ir embora vai guardar tudinho.

O pai se despede. O próximo que a doutora chama é o irmão mais velho. Depois será a sua vez.

O garotinho sai da sala com a mãe, abre a boca para a avó e diz que está tudo limpo. Nenhum pontinho para a doutora tratar.

Com pressa, puxa a mão da avó. Vamos, vamos.  A avó pergunta se não falta nada, pede para ele olhar em volta. Ele vê a caixa, chama o irmão e apontando para a caixa, diz, – “Ajuda, ajuda. Eu sou pequenininho”.

Antes de ir embora, diz à doutora que quando o irmão voltar, ele também quer vir junto. Rindo a doutora diz que sim, pode voltar, mas com os dentes limpinhos, sem pontinho para tratar.

Ele concorda e sai se despedindo com as mãos.

 

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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