CANTO DO BACURI > Mari Satake: Estranhezas

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Estranhezas

 

Chegou ali sem nada saber da cidade. Tinha apenas o nome e o endereço do hotel. No hotel, disse seu nome e entregou o papel da reserva. Sim, havia a reserva. Com o corpo cansado, arrastou seu corpo pesado até o quarto e se esticou na cama. Dormiu por horas seguidas. Com fome e frio, saiu pelos arredores do hotel. Tudo lhe parecia estranhamente conhecido. Porém, ao tentar falar com as pessoas que encontrava pelo caminho, era como se ninguém o visse ou escutasse. Com fome, entrou no primeiro restaurante que encontrou. Nunca havia visto nada parecido. Gente velha, gente nova, gatos, cachorros, passarinhos, tudo se misturava ali naquele ambiente cheio de fumaça e gordura. Gente comendo nas mesas com seus gatos e cachorros, pássaros voando pelas mesas. Sentiu um imenso asco, quis sair correndo. As portas se cerravam conforme se aproximava. Via homens e mulheres entrando e saindo, e ele estranhamente era barrado ao se aproximar. Via o homem que parecia ser o maitre do local, falava com ele, gesticulava, berrava e o homem o ignorava. Era como se ali não estivesse. Começou a ficar desesperado. Falava e era ignorado. Berrava, berrava e ninguém o percebia. Passou, a esmurrar a porta. Chutava, esmurrava. E as pessoas foram se arrumando ao seu redor num grande semi-círculo. Assustado e cansado foi parando, encolhendo seu corpo, cobrindo seu rosto com os antebraços, as mãos caindo a frente.  Era um trapo de gente sentado no chão, querendo apenas sair dali.

Parado no chão não sabe quanto tempo se passou. Devagar, foi abrindo seus olhos e viu um enorme cachorro se aproximando. Teve muito medo e o cachorro com seu focinho, fez com que ele se levantasse. Não, não era preciso ter medo. Conseguiu sair dali. Na rua deserta, apenas ele, um trapo de gente. O relógio no pulso mostrava as horas. Pensou estar enlouquecendo.  Desde que saira do hotel não se passaram mais que trinta minutos. Passou a mão pelo corpo. Seus pertences continuavam todos em seus bolsos.

Ainda com fome e frio, continuou em suas andanças. Via bares e restaurantes. Ouvia as músicas que saiam das máquinas, homens e mulheres entravam e saiam das casas noturnas. Na rua sentia-se seguro, mas teve medo de entrar nas casas. Ficou perambulando pelas ruas. Foi dar numa enorme praça. Ali a festa acontecia ao ar livre. Conforme as pessoas chegavam, mesas e cadeiras eram dispostas, ato contínuo pratos fundos, colheres e uma infinidade de apetrechos eram trazidos por crianças. Em seguida, enormes caldeirões eram trazidos por mulheres enfeitadas.

Ele ficou ali no alto. Admirando. Salivando. Criou coragem e se aproximou da praca. Ficou parado e nenhuma mesa vieram lhe armar. Não se sabe de onde, mas crianças chegaram e lhe anunciaram que seriam seus convidados, assim ele poderia comer.

Ficaram ali na praça, comendo, bebendo e conversando. As crianças não entendiam o que ele dizia e ele não se importava. E falava, falava, falava. As crianças não entendiam suas palavras mas entendiam que ele precisava comer, beber e falar. Horas depois, exausto de tanto beber e comer, ele já não sabia onde estava e nem para onde deveria voltar. Não sabe como. Mas chegou em seu quarto e dormiu.

Na manhã do dia seguinte, tomou seu banho quente, vestiu sua farda e seguiu para o grande auditório. Logo mais, ele seria mais um estrangeiro a subir no imenso palco para falar de coisas que ele já nem sabe se ainda acredita. E ele não se importa, sabe que na platéia sempre estarão as mesmas pessoas esperando ouvir o que ele e seus parceiros de ofício pregam há tanto tempo. E ele nem pode pensar em parar.

Terminada a sua tarefa no palco, enquanto combina com seus pares sobre onde irão jantar, começa a ouvir as histórias. Estranhos acontecimentos. Canadenses, africanos, japoneses, americanos, cada um com sua história fantasiosa ou fantástica. Em comum a quase todos, ninguém quer partir sem antes, voltar ao lugar dos estranhos acontecimentos que viveu naquela primeira noite no país. Cada um, num canto da estranha cidade.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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