CANTO DO BACURI> Mari Satake: A prima que chegou de surpresa

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A prima que chegou de surpresa

 

Um dia uma estranha moça chegou a sua casa com uma grande mala e outras duas menores. Apresentou-se como filha do irmão mais novo do pai. O pai estava no trabalho, a mãe havia saído para as compras, as irmãs e o irmão na escola. Na casa só ela e dona Elisa, a mulher que vinha duas vezes por semana para ajudar a mãe nos serviços da casa. Ela que nem sabia que o pai tinha um irmão mais novo, achou estranho. Recebeu a moça e pediu que aguardasse um pouco. Iria pedir ao pai que viesse recebê-la. Sem entender direito o que passava em sua casa, o pai tratou de correr para verificar o que ocorria.

Ali estava a moça. Trazia seus documentos, uma carta escrita pelo seu pai, algumas fotos antigas e pequenas quinquilharias familiares que tinham sido de seu pai, o irmão mais novo. Surpreso, o pai a recebeu com certo distanciamento. De imediato, reconheceu as fotos e os pequenos objetos. Quis saber mais notícias do irmão, da mãe da moça. Sobre a mãe, ela não tinha o que dizer. Seu pai lhe dizia que a mãe havia partido para muito longe quando ela tinha pouco mais de três anos e nunca mais os procurou e nem mandou notícias. E ela, estava ali porque foi o último pedido que seu pai lhe fez minutos antes de partir.

Assim, desde aquele dia, a família passou a ter uma nova integrante.

Aos poucos, foram se acostumando. A moça, na realidade, era apenas uma menina de quase quinze anos. Pouca coisa mais nova que a filha mais velha da casa. Os pais logo trataram de arranjar uma vaga na escola, providenciar o uniforme e inserir a garota nas atividades da casa. No início, não foi uma convivência muito fácil entre as crianças. Mas, sob os olhos atentos da mãe, as coisas foram se ajustando, se engrenando.

A mãe, sempre que apresentava a nova integrante da casa, dizia que a sobrinha era a filha que lhe foi entregue já crescida.

Os anos de infância e juventude com os pais passam muito rápido. E, naqueles tempos, nas cidades do interior era comum, os filhos saírem da casa dos pais para prosseguirem os estudos num curso superior na capital ou em outras cidades maiores. Na casa dela, não foi diferente. Logo, as duas imãs mais velhas partiram. No ano seguinte, também o irmão.

Com os pais, ficaram apenas ela e a prima. Encerrado os ciclos básico e médio e vendo quase todos partindo a prima pediu autorização aos tios para permanecer ali, vivendo com eles. Seu desejo era nunca mais sair de perto dos tios que a acolheram. Anos mais tarde, também a filha mais nova saiu para estudar na capital e se juntar às irmãs e irmão.

No interior, os pais e a prima. A prima fez curso superior ali mesmo na cidade. Prestou concurso, foi nomeada e seguiu carreira e até se casar ficou morando com os tios. E mesmo casada, tratou de morar bem perto da casa dos tios a quem tratava como verdadeira filha.

Agora, tantos anos depois, os pais já se foram, o irmão também, as irmãs se revezam. A prima, novamente só, viúva e sem filhos. Gravemente enferma. Há de ficar boa e voltar às salas de aula. Os alunos estão à sua espera.

 

MARI SATAKE

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