CANTO DO BACURI > Mari Satake: 24 Olhos

canto-do-bacuri-makiNo original, “Nijushi no Hitomi”, belíssimo filme de 1954 com adaptação e direção de Keisuke Kinoshita é baseado no romance de mesmo nome da escritora Sakae Tsuboi.

Narra uma história ocorrida ao longo de 20 anos num pequeno vilarejo ao sul na ilha de Shodoshima, Kagawa, JP. Ali, inicialmente, as crianças permanecem por quatro anos na escola local antes de seguirem para a escola principal que fica a quase cinco quilômetros de distância.

É início do ano letivo de 1928, a antiga professora, de mudança, se despede de seus pequenos alunos que também deverão partir para a escola principal. O vilarejo espera pela nova professora.

Com trajes ocidentais, arrojados para os costumes locais, a nova professora chega de bicicleta para espanto de todos. Apesar do impacto causado, logo conquista a simpatia de seus pequenos doze alunos da primeira série.  Dedicada ao máximo aos alunos, desde sua chegada, a professora Oishi age de forma a valorizar ao máximo a individualidade de cada uma das crianças, estimulando-as a amarem a própria vida acima de tudo. Extremamente dedicada, enquanto corrige as lições de seus pequenos alunos, diz à sua mãe que deseja que aqueles vinte e quatro olhos jamais percam o brilho com que a olhavam no seu primeiro dia de aula naquele vilarejo. Para seus alunos também era o primeiro dia na escola.

Eram tempos da política expansionista do império japonês. Propagava-se a ideia de que o progresso chegaria ao país com a vitória nas guerras. Desta forma, desde muito cedo, as crianças, principalmente os meninos, acreditavam que o mais honroso para suas vidas era se tornar um soldado e partir para a guerra. E, é claro, em seus sonhos de meninos, voltariam como heróis e seriam cobertos de glórias.

A professora não estimulava esta crença, ao contrário, buscava sempre enfatizar que o mais importante era viver. Sua forma de pensar, contrária aos interesses vigentes, logo traria aborrecimentos à professora. Pressionada por ser uma voz discordante do sistema, decide deixar o magistério. Apesar de afastada das salas de aula, ela jamais deixou de se interessar pela vida daqueles seus doze alunos.

Assim, ficamos sabendo dos inúmeros acontecimentos e transformações envolvendo aqueles doze alunos nos anos subsequentes. Casamento, nascimentos, mortes, separações, uma série de acontecimentos vão se sucedendo.

Com direção suave, bastante hábil, a história vai sendo narrada de forma a levar o espectador a refletir não apenas sobre a história que está sendo contada mas também, sobre a sua própria vida e a forma como se posiciona diante de decisões políticas que lhe são impostas e sobre as quais, muitas vezes, ele nada ou quase nada pode fazer.

A fotografia e o cenário são belíssimos. O filme tem também uma ótima trilha sonora com as tradicionais canções cantadas pelas crianças. É um filme que vale a pena. Para ver e rever.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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