CANTO DO BACURI > Mari Satake: Fragmentos

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Fragmentos

 

Filha de imigrantes. Os pais vieram para cá muito jovens ainda. Vieram sem filhos acreditando que nos primeiros anos apenas trabalhariam. Com o bolso cheio de dinheiro voltariam ao país de origem e aí sim, teriam seus filhos.

Não foi o que aconteceu. Logo o casal percebeu que levaria muito tempo para conseguir juntar dinheiro suficiente para voltarem. Acabaram tendo os filhos por aqui mesmo. Depois do primeiro, que demorou um pouco para chegar, vieram os outros. Um atrás do outro. No total foram onze filhos que o casal teve.

Dá para imaginar que não foi nada fácil, a vida dela, de seus irmãos e pais. Do antigo sonho dos pais, ficaram as lembranças e a esperança de um dia conseguirem voltar a passeio.

Cinquenta anos depois os pais voltaram. Somente a passeio. E ela patrocinou.

 


 

 

Era a filha rebelde. Já estava ficando para titia. Solteira não podia permanecer. Os pais lhe arranjaram um casamento. Dois dias depois, chegaram os quatro. A filha, o marido recém-casado e os pais deles.

Enfurecidos e ofendidos se deram ao trabalho de vir devolver a filha. Pediram apenas para aceitarem a filha de volta com a anulação do casamento e nunca mais falariam do assunto.

Os pais resolveram aceitar.

Meses mais tarde, novo casamento arranjado. Desta vez, tinha tudo para dar certo. Ele era um moço de ideias arrojadas.

Ela saiu do interior para viver com o marido na grande cidade.

De filha rebelde passou a posar de esposa dedicada ao marido infiel. Seu casamento durou mais de quarenta anos. Teve três filhos e de sobra, chegaram mais dois.

Herança que o marido lhe deixou.

 


 

 

Era dono de pequena fábrica de biscoitos.

Tudo começou com os biscoitos que a mulher fazia. Tudo que fazia, vendia. De manhã formava fila na calçada em frente ao portão de sua casa.

Ele logo percebeu que seria melhor deixar o emprego de escriturário no banco e ajudar a mulher com os biscoitos. Conseguiu um acordo e com o dinheiro da rescisão montou a pequena fábrica.

O negócio prosperou. Criou os filhos proporcionando-lhes o melhor que podia. Por sorte, eram meninos estudiosos. O caçula era seu predileto, nele apostou todas as fichas. Até estudar em Havard, o menino foi.

A fábrica ia bem. Já nem se podia dizer mais, pequena fábrica. Seu negócio vinha prosperando desde que começou. Mas, ele e sua mulher já vinham fazendo planos para deixar o negócio. Só aguardando pela volta do mais novo. Os outros filhos não tinham interesse pela fábrica.

O tão esperado dia da volta chegou. E com a volta do menino, vieram as transformações na antiga fábrica.

Dez anos depois, da antiga fábrica só restam lembranças.

Lembranças e novas intenções. Sorte a deles que conseguiram liquidar as dívidas arrumadas pelo filho e ainda lhes resta a casa onde moram e o terreno com as instalações onde funcionou a fábrica.

 


 

 

Dos quatro filhos era a mais nova.

Era de um tempo em que eram todos muito pobres, sem acesso aos estudos. Mocinha ainda foi morar com uma família recém-chegada ao Brasil. Sua obrigação era cuidar das crianças.

Uma vez por mês, tinha direito a voltar para casa dos pais. No começo voltava. Depois de algum tempo, suas visitas foram se tornando cada vez mais raras. Com o tempo, parecia ter se esquecido de sua origem.

Arranjaram-lhe um casamento. Casou, teve filhos. O marido não era um homem rico, mas tinha um bom emprego. Deu a ela uma vida confortável e aos filhos, condições de estudar até a vida adulta.

Hoje, viúva, ela posa de dondoca bem de vida. Faz suas maldades e intrigas nos meios por onde circula.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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