CANTO DO BACURI > Mari Satake: A filha do padre

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A filha do padre

 

Era uma menina calada. Sempre bem arrumada, parecia uma princesa.

Chegou à classe alguns dias depois que as aulas tinham começado. No dia que ela chegou, o diretor foi até a sala anunciar que logo viria uma nova aluna e todos deveriam recebê-la muito bem. Minutos depois, ele próprio, acompanhado da orientadora, veio com a menina.

A classe bem que tentou. Todos, cheio de curiosidades com a menina de pele clarinha e olhos quase transparentes, quiseram a sua companhia no recreio. Mas, ela, educadamente agradecia e dispensava um a um os convites que lhe eram feitos.

Nos dias seguintes, as crianças, todas, muito curiosas com a menina faziam de tudo para chamar sua atenção. Ela apenas sorria. Nunca aceitava sair e brincar com os novos colegas. Quando a professora ou alguma outra criança falava com ela, era sempre muito gentil, porém suas respostas eram sempre lacônicas, não estimulando ninguém a querer seguir conversa.

Nos primeiros dias depois de sua chegada, ela era a aluna nova de quem todos queriam se aproximar. Em seguida, diante de tantas recusas, ela passou a ser a estranha.

Não demorou muito e, um dia, alguém chegou com a novidade. Naquele dia, quase não teve brincadeira, ficaram todos num tititi de dar pena. Precisavam, à maneira deles, encontrar uma justificativa para o jeito diferente da menina. Ela, que de quase princesa, passou a ser a estranha; agora, era aquela a quem só se referiam com a voz bem baixinha.

Na sala de aula, passaram a querer evitá-la. Nos pequenos grupos de trabalho, era sempre preciso a intervenção dos mais velhos para que a menina fosse incluída. No grupo, agiam como se ela não estivesse. Não lhe dirigiam a palavra e nunca consideravam a menor tentativa de manifestação que ela fizesse. Não a tratavam mal e nem lhe faziam chacotas, apenas a ignoravam.

Assim se passaram alguns meses daquele ano escolar. Um dia, a menina faltou. Ninguém nada falou. No dia seguinte, mesma coisa. No terceiro dia, ficaram todos sabendo. A menina estava doente, terrivelmente doente. O ano escolar estava acabando e nada da menina voltar, a classe agora queria visitá-la e ela, terminantemente se recusava a receber seus colegas.

Terminado o ano, houve a dispersão natural das crianças. Algumas entraram em férias juntamente com suas famílias, outras entraram nos programas de férias que a escola oferecia e assim foi até o início do novo ano escolar.

A menina não retornou no ano seguinte. Os mais velhos nunca mais falaram sobre o assunto com as crianças da classe. A vida escolar prosseguiu como se nada tivesse acontecido. As crianças envolvidas elas próprias, falavam do episódio do ano anterior, como a menina que veio de fora e logo mudavam de assunto.

Passados tantos anos, relembrando do fato, hoje sabemos.  Hoje se fala disso. Bullying sempre existiu.

A menina que veio de fora era tão bonita e encantadora que todos queriam tê-la como amiga. A menina não compreendeu que as crianças apenas a queriam como amiga. As crianças não compreenderam que a menina apenas não entendeu isso. Descompasso no tempo de entendimento. Para justificar o comportamento da menina, precisaram encontrar uma explicação. Um dia, um dos amiguinhos, chegou com a máxima. – Lembram do professor loiro que era padre e foi expulso da igreja porque tinha uma namorada e uma filha? Conclusão apressada e errada.

Agora adulta, relembrando daqueles tempos, ela só deseja uma coisa, ficar bem atenta à educação de suas crianças para não deixar que elas se envolvam em situações que causem tanto sofrimento e danos à outras crianças.

 

 

MARI SATAKE

MARI SATAKE

marisatake@yahoo.com.br
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