CANTO DO BACURI > Mari Satake: A menina do origami

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A menina do origami

 

Pequenininhas costumavam ir para o interior passar as férias escolares. Ela e a irmãzinha muitas vezes, viajavam de ônibus em companhia da tia. A tia também, naquela época, ainda era estudante e podia viajar com as duas.

No interior, os avós. Pais da mãe. Passavam ali uma boa parte de suas férias. Naquela época, os dois já dispunham de bastante tempo para atender as meninas. Foi com a avó que ela aprendeu a sua primeira dobradura, devia ter os seus cinco ou seis anos. Fazia com papel branco e, munida de lápis de cor e canetas coloridas decorava cada uma das faces de suas dobraduras que fazia em diversos tamanhos.

Ela e a irmãzinha passavam horas entretidas com a nova brincadeira. Terminada as férias, ela chegou com a novidade na escolinha.   Sucesso entre a garotada. No início, fazia para os amiguinhos, depois propôs que eles aprendessem. Não deu muito certo. Mas, diariamente, na hora do recreio, vinha alguém lhe pedir uma daquelas dobraduras coloridas que ela fazia. Com o passar dos dias, não eram apenas os de sua turminha que vinham lhe pedir, vinham também das outras.

Não demorou muito, ela percebeu que eram sempre os mesmos que pediam. Aborrecida, fez o seu discurso. O pouco tempo que lhe sobrava de noite em sua casa, eram dedicados à confecção das dobraduras e eles não tinham o menor cuidado. Dali para frente, só faria se lhe pagassem. E cobrou adiantado.

Naquela noite ela teve descanso. Por enquanto, só naquela noite.

No dia seguinte, com o dinheiro das encomendas em mãos, anotou o nome de cada um dos amiguinhos que lhe pagaram antecipadamente. Teve pressa para voltar para casa. Sabia que a noite seria curta para tantas dobraduras. Depois de muitas broncas para apagar a luz, conseguiu dar conta do recado com a ajuda da irmãzinha. Foram dormir exaustas. Na manhã seguinte, nada das meninas acordarem. Só depois de muita chamada dos pais.

A história se repetiu por mais dois ou três dias. Em casa, de noite, a mesma bronca para apagarem logo a luz. De manhã, a mesma coisa, na hora de acordar. Só pulavam da cama com a chegada do pai no quarto, já pronto para sair para o trabalho. Trôpegas, caindo de sono, iam dormindo mais um pouquinho no carro.

A mãe tentava saber por que a menina tinha que fazer tantas dobraduras e a menina apenas respondia que era porque os amiguinhos não sabiam fazer e ela tinha prometido. E a pequena dizia que só ajudava. Sem revelarem o que de fato estava acontecendo, as duas quietinhas abaixavam a cabeça.

Mas, a brincadeira, ou melhor, os negócios não prosperaram. A menina foi chamada na presença da diretora e da coordenadora e se explicou. Ela fazia as dobraduras e no dia seguinte, as mesmas pessoas pediam de novo. Ela não achou justo isso, calculou que se as pessoas tivessem que pagar pela dobradura, elas tomariam mais cuidado e não viriam lhe pedir todos os dias. Por isso, resolveu cobrar. Oras bolas! Nem a diretora, nem a coordenadora lhe repreenderam. Apenas lhe explicaram que a escola não era local para este tipo de troca entre os alunos.

Assim, a sua precoce carreira de empreendedora sofreu uma pausa.

Passados muitos anos, já adulta, às voltas com uma exaustiva jornada de trabalho e com sua pequena filhinha para educar, enquanto a menina dorme, ela se vê rodeada de papéis coloridos e canetas coloridas, fazendo inúmeros pequenos origamis. Pássaros, sapos, coelhos e toda sorte da fauna deste e de outros tempos. Amanhã, é dia de falar das origens na escola de sua pequena. Tarefa para os pais. Enviar para a escola elementos representativos que simbolizem a origem de cada um deles.

Tarefa cumprida.

 

MARI SATAKE

MARI SATAKE

marisatake@yahoo.com.br
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