CANTO DO BACURI > Mari Satake: Dona Teodora

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Dona Teodora

 

Na festa de noventa anos de dona Teodora teve de tudo. Sushi, sashimi, feijoada, churrasco, quentão, cerveja, farofa, pipoca, suco de limão, caipirinha, coca-cola, rapadura, pé de moleque e de moça, salada de pepino com harussame, salada de maionese, bolo de chocolate, bolo de fubá, guaraná, brigadeiro, manju e tudo mais que você pensar.

Parentes, filhos, filhas, netos, bisnetos, amigos, amigos de amigos, vereador, ex-prefeito, prefeito atual com comitiva e respectivas famílias. Rivais políticos, inimigos mortais. Situação, oposição. Estavam todos ali. No aniversário de Dona Téo, ninguém ousa faltar. E também ninguém ousa discutir assuntos que podem resultar em brigas. Se há alguém que pode falar qualquer coisa é ela, Dona Teodora que tem todos os argumentos para bem defender aquilo em que acredita.

Dona Téo é a filha mais velha de um casal de imigrantes japoneses. Nasceu no cafezal.  Ganhou o nome do encarregado da fazenda que ajudou no parto. Depois dela, vieram mais nove irmãos. Irmãos que ela ajudou a criar e casar. Primeiro, ela cuidou do casamento dos irmãos, só depois é que cuidou do seu. Foi noiva de seu Hazime por longos nove anos.

Dona Téo conta com orgulho que seu Hazime desde o começo sabia que ela só se casaria depois de cuidar do enxoval e do casamento da caçula da família que nem tinha ainda idade para namorar quando eles ficaram noivos.

Seu Hazime prometeu esperar trabalhando muito. Durante todo o tempo do noivado, seu Hazime prestou contas de seu progresso financeiro para dona Teodora e seus pais. Quando finalmente eles se casaram, o patrimônio do casal já estava bem sólido. Sorte a dele porque dez meses depois do casamento, nasceram as suas gêmeas. Um ano depois o filho e assim até completarem o que ela havia planejado. Tiveram seis filhos, três mulheres e três homens.

Sendo a filha mais velha, dona Teodora sempre cuidou de ter todos por perto.  Mesmo aqueles que foram morar longe, em outras cidades, dona Teodora sempre arranjava um jeito de fazer com que os irmãos e suas famílias viessem para visitar os pais enquanto eles estavam vivos. Mesmo depois de muitos anos que os pais e até alguns dos nove irmãos se foram, todos os anos, dona Teodora organiza as cerimônias memoriais e pede a presença de todos.

Diz que sua família é como qualquer outra: volta e meia surgem discordâncias entre alguns. Mas, acredita que estas não devem ser maiores que o sentimento que os une, por isso sempre que fica sabendo de algum barulho entre os irmãos, ela faz como fazia antigamente. Chama as partes envolvidas e trata de resolver as diferenças e promover a união novamente. Dando risadas, ela diz que é preferível os irmãos se entenderem a aguentar ela “buzinando” no ouvido deles separadamente e várias vezes num mesmo dia, até que as partes se reconciliem. Ainda rindo, ela diz, “estamos todos velhos e por isso, já nem aparecem encrencas para eu resolver. Já nem temos mais energia”.

Engana quem pensa que ela já não tem energia.

Chegado o momento do “parabéns a você” em seu discurso de agradecimento pela presença, dona Téo fala da importância de se manter a serenidade e sensatez em todos os momentos. Aos jovens ela pede que estejam todos atentos e não se deixem enganar pelas mentiras contadas pelos mal intencionados de plantão.

E são tantos.

 

MARI SATAKE

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