CANTO DO BACURI > Mari Satake: 8 de março, Dia da Mulher

A menina chega toda de lilás, pergunto a ela por que escolheu se vestir assim e ela me indaga: – mas você não sabe? A mãe intervém. Diz que ontem enquanto a levava para a escola, na emissora de rádio que escutavam, a entrevistada falava da importância da manifestação programada para o dia seguinte e que todas as mulheres deveriam se vestir com lilás, roxo ou violeta. Já bem próximas da escola, a menina anunciou que falaria para a tia e todas as coleguinhas da turma para vestirem roupas numa destas cores. A mãe tentou argumentar que a escolinha adotou o uniforme e que talvez não fosse possível. De imediato, ela lembrou à mãe que se tem o dia da festa do pijama, então não tem nada demais a tia concordar com sua ideia. Orgulhosa, a pequena diz que precisou esperar um pouco para saber se a diretora da escola concordava. E para sua alegria, a diretora não só concordou como também convidou todas as outras tias da escola para vestirem a cor, se quisessem.

Parabenizo a menina pela iniciativa. Olho para a mãe e sorrimos. Ela, a mãe, sabe de sua imensa responsabilidade, sua garotinha tão novinha, promete! Muito trabalho! Os compromissos com o horário as chamam, elas logo saem. Passaram por aqui apenas para trazer o pão que a pequena achou que a tia gostaria de experimentar. Enquanto tomo meu café da manhã, surpresa com os feitos da pequena, penso na extensão do que acabo de ver.

Acabo voltando no tempo, ao tempo de juventude. Anos setenta quase oitenta. Tempo em que o mundo do trabalho era muito mais do que hoje, dividido em profissões para homens e profissões para mulheres. E fiz a difícil escolha. Primeiro dia de aula. Numa escola dominada por homens, fiz parte da primeira turma onde o grupo de alunos com o nome começando com a letra M era composta por quinze a vinte alunas. Éramos tratadas como “as marias”, monstras, canhões e por aí vai. Depois daquele ano, cada vez menos, as meninas foram deixando de ser novidade. Anos difíceis. Muitas horas de estudos, poucas horas de sono bem dormidas e muito stress para quase todas, cada uma carregando o seu fardo pessoal. Mas, aos trancos e barrancos, sobrevivemos. No final, o diploma. Depois, a luta pelo espaço no mundo do trabalho. Ali, novamente, a briga pelo espaço a conquistar, as discriminações, as diferenças salariais, os favorecimentos ao masculino. Depois de vinte anos na profissão, houve época em que cheguei a trabalhar em setor onde o número de mulheres e homens se equilibrava. Mas, é claro! Os melhores salários e postos eram dos homens, de forma geral. Passou. Tudo passa.

Houve época no país, há não muito tempo, em que acreditei que um mundo melhor estava mais próximo. No país, conseguimos tirar da fome e miséria milhares de famílias, graças à política praticada por um líder sindical nascido no mundo do trabalho nos mesmos anos setenta/oitenta e mais tarde eleito presidente do país. Depois, conseguimos eleger sua sucessora, uma mulher. Tivemos a honra de ter uma mulher honesta, honrada, presidente da república. E ela se reelegeu. Foi a gota d’água para a horda dos machos destemperados e desonestos do país. Fizeram arruaças e estardalhaços e conseguiram dar um golpe na presidente do país. E neste golpe, infelizmente, tiveram a ajuda de mulheres. Equivocadas e malditas mulheres. Vergonhosamente, elas fizeram o uso da palavra, dando o sim para a deposição da presidente escolhida por 54 milhões de brasileiros que democraticamente lhe deram o seu voto.

Hoje, estamos assim. Por onde andamos, vemos homens e mulheres jovens andando pelas ruas nos horários em que deveriam estar trabalhando. Estabelecimentos comerciais encerrando suas atividades. Taxa de desemprego nas alturas. Escolas públicas lotadas. Escolas particulares fechando suas salas de aulas. Fábricas fechando. Riquezas naturais entregues ao capital externo. Pequenos produtores massacrados pelo massacre voraz dos agronegócios. Direitos trabalhistas conquistados há anos em vias de extinção pelo usurpador e sua trupe. A lista das maldades trazidas e pretendidas vai além.

Hoje é dia 8 de março, Dia da Mulher e é Dia Internacional de Luta. No Brasil, é dia de manifestar que não desejamos a continuidade das discriminações e violência de gênero e em especial, somos contra as reformas da Previdência que o usurpador pretende nos impor.

 

MARI SATAKE

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