CANTO DO BACURI > Mari Satake: Eterno aprendiz

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Eterno aprendiz

 

Vivia dizendo aos colegas que um dia largaria tudo aquilo e faria “outra coisa” na vida. Sabia muito bem o que pretendia fazer, mas não dizia nada sobre a “outra coisa”. Falava e fazia ar de mistério. É verdade, quando se punha a falar daquela maneira, estava sempre alterada por umas doses extras. Não só ela. Ela e os colegas de equipe. Durante o dia, se debruçavam sobre as enormes pilhas de papéis. Calculavam, rabiscavam, conferiam, rabiscavam novamente. Devolviam para a turma da prancheta. Novos estudos, novas divagações, discussões sem fim. Assim eram as dez ou doze horas de seus rápidos dias. Costumavam ficar no escritório até as nove ou dez da noite. De lá, iam direto para o boteco da esquina. Do bar, já bêbados, saiam trançando pernas e línguas. De segunda a sexta. Viveu naquele ritmo por alguns anos.

Um dia, ouvindo uma conversa das crianças da família, percebeu que precisava agir rápido. Os anos estavam passando e se quisesse realmente fazer alguma outra coisa em sua vida, precisava se apressar. Sentia-se embrutecida, achava que já nem mais sabia das coisas que lhe davam prazer. Lembrava-se de seu velho discurso e se perguntava se seria a hora de partir para aquela “outra coisa”? Calculava que não. Tinha ainda tantas outras opções.

Cansada da forma como estava conduzindo sua vida, mudou de canal e de emprego.  Deixou de fazer as horas extras noturnas no trabalho e também as aparentes inocentes bebedeiras. Suas poucas horas disponíveis após o expediente diurno ou dos sábados passaram a ser dedicadas a cursos de várias ordens. Línguas estrangeiras, pintura, cerâmica, literatura, oficinas para soltar o corpo e o verbo, terapias e afins.

Não demorou muito, resolveu encarar o velho sonho dos anos finais da primeira faculdade. Foi fazer aquele outro curso superior. Fez. Depois as especializações. O exercício. A prática. Com os anos, já estava fazendo aquela “outra coisa” em sua vida. E nem por isso, suas inquietações passaram. Ao contrário, talvez tivessem até aumentado, mas, já não a angustiavam como antes.

Agora, ela olha para si, olha no seu pequeno entorno.  Volta-se a algumas amigas ou amigos que ela bem sabe de longa data. Todos em movimento, em busca de algo. Como ela, todos ainda em busca e se pergunta, seremos todos, vítimas da mesma síndrome do eterno aprendiz?

Lembra-se do enérgico amigo que lhe cobrava mais ação e menos “pensações”. Foi ele quem lhe falou da tal síndrome que a afetava.

Novamente, ela se vê querendo encontrar novas alternativas, novos caminhos. Haverá de encontrar.

 

 

 

MARI SATAKE

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