CANTO DO BACURI > Mari Satake: Descer a rampa

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Chegou sozinha. Imponente, com passos lentos, desceu a rampa apoiada em sua bengala. Lá em baixo, parou e com o olhar fez um giro pelo espaço. Vagarosamente, foi se aproximando dos cubos. Diante de cada um deles, um discreto gesto de reverência. Em seguida, com olhos atentos observava. Algumas vezes, fazia anotações na caderneta que carregava no bolso do casaco; outras vezes, falava qualquer coisa com quem estivesse por perto. Assim, ela passou algumas horas ali dentro.

Eles chegaram em bando. Alegres, com roupas coloridas, desceram a rampa em disparada. Percorreram pelo espaço, tinham pressa em encontrar a plaquinha com um determinado nome. Fizeram apostas entre eles para ver quem primeiro acharia. Por duas ou três vezes, o menorzinho anunciou. Os outros corriam para perto, para se certificarem. Engano. Risada geral. Novamente se dispersavam. Avistaram pai e mãe parados. Correram para perto. Ao mesmo tempo, com os olhos na plaquinha, deram-se as palmas da mão. Ninguém achou primeiro. Acharam juntos, com pai e mãe. Não satisfeitos, inventaram nova aposta e saíram de perto deles. Não, sem antes prometerem que não gritariam e nem atropelariam ninguém.

Velhinho, ele desceu a rampa apoiado em sua bengala. Diante dos trabalhos expostos, também as pessoas eram alvo de suas observações. Com algumas, falava; tecia comentário e, às vezes, até sorria. Outras pessoas pareciam nem estar ali, perto dele. Ele simplesmente ia avançando e se colocando diante do que queria ver, atropelando quem estivesse ali parada antes que ele se aproximasse. Como um trator desgovernado.

Entrou parecendo estar com muita pressa. Sem olhar para os lados, seguiu direto até um determinado ponto. Ficou ali parado. De tempos em tempos, olhava aflito para o relógio em seu pulso. Como se lembrasse, pegava o celular em busca de alguma mensagem. Guardava o celular no bolso. Olhava para os lados, para o alto. Cruzava e descruzava os braços. Olhava o relógio. Novamente o celular. Os braços. Seu corpo se esticava, o pescoço parecendo querer saltar. Várias vezes, os mesmos movimentos. Com o passar dos minutos, os movimentos foram ficando mais vagarosos. O cansaço parecendo dominar. O corpo diminuindo. Desistiu de esperar. Corpo e braços estendidos para o chão, ele foi se arrastando em direção à rampa de saída.

Como o tempo lá fora, ela chegou radiante. Cabelos arrumados, roupas vistosas e espalhafatosas, desceu a rampa se equilibrando nos saltos altos. Nem bem chegou e as pessoas corriam em sua direção. Distribuiu abraços e beijos. Caminhava e parava mal conseguindo apreciar as obras expostas. Ficou ali por um quarto de hora.

Eles vão chegando. Perguntam onde será a oficina. Timidamente vão se dirigindo ao local. Sentam-se. Em silêncio aguardam. Enquanto as atividades não começam, os que já se conhecem conversam bem baixinho entre eles. Os outros esperam. Com as mesas e cadeiras lotadas é feita a palestra introdutória; depois, a primeira demonstração, a segunda. Começa a distribuição do material. É feita a última demonstração. Os participantes são estimulados a começarem os seus arranjos. Aos poucos, vão se desinibindo. Se soltando. Vão se permitindo. Uns trabalham sozinhos, outros querem auxílio. Pedem a aprovação final. Terminado o trabalho, de forma geral, estão satisfeitos. Aos poucos, vão se retirando. Carregando em suas mãos, seus singelos troféus.

 

MARI SATAKE

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