CANTO DO BACURI > Mari Satake: A “bisa”

 

 

Às vezes, conhecemos pessoas com quem não de­senvolvemos relações e, no entanto, são pessoas que de alguma forma nos mar­cam.

Dona Aninha é uma dessas pessoas. Mãe de amiga de adolescência e juventude de minha irmã mais velha poucas foram as vezes em que tive contato com ela. Andando com minha mãe, vez ou outra, aconteceram os encontros casuais e nestas ocasiões, a conversa das duas se estendia por um bom tempo e eu nunca tinha pressa para que a conversa das duas acabasse logo. Gostava de ouvi-las falando. Poderiam ficar horas e horas e eu ficaria ali quietinha, sem reclamar nem me impacientar. Com ela, ao contrário da maioria das outras conhecidas de minha mãe, eu não me sentia deixada de lado. Ela sempre tinha um ou outro comentário que eram de meu agrado.

Dona Aninha tinha também outra filha e os filhos homens. A outra filha tinha idade que regulava com a minha, mas estudávamos em escolas diferentes e não ficamos amigas. Essa outra filha de dona Aninha, era uma menina muito bonita. Era meiga e delicada como a mãe. E eu pensava que ela era assim porque tinha um nome que eu achava que era nome de boneca.

O tempo passou, minha irmã foi morar em outra cidade, mais tarde eu também e com isso não a vi mais. Mas volta e meia, ouvia falar um ou outro assunto referente à Dona Aninha ou à sua família. É que havia os pais, ambos tinham sido colegas de baseball quando eram mais moços. Então apesar das famílias não terem grandes relações, havia um elemento comum entre elas e sempre que algo relevante acontecia, o assunto acabava aparecendo nas conversas familiares.

Um tempo atrás, minha outra irmã que voltou a morar no interior, um dia ao nos visitar, trouxe uns trabalhos manuais muito bem feitos, de muito bom gosto. Trabalhos em papel e em tecido. E com os presentes, trouxe também notícias da antiga amiga de nossa irmã mais velha. Os trabalhos em papel eram feitos pela amiga e os trabalhos em tecido feitos pela mãe, Dona Aninha.

Com minha irmã morando no interior, voltei a ouvir notícias daquelas pessoas. Mês passado, quando fui passar uns dias com minha irmã, num de nossos passeios, ela me propôs, vamos passar ali onde mora Dona Aninha, esqueci meu celular, mas não faz mal, vamos lá rapidinho. Em frente da casa, minha irmã tomou a dianteira para apertar a campainha e logo fomos recebidas. Reconheci-a imediatamente. Surpresa, ela sorriu e disse meu nome. Ao ouvi-la, imediatamente fui tomada pela antiga sensação, a mesma dos tempos em que era apenas uma menina andando em companhia da mãe. No entanto, era eu que ali estava em companhia de minha irmã porque desejava ver os seus trabalhos manuais.

São todos muito bonitos, fiquei encantada e ela disse confirmando que sempre coloca a cor vermelha para seus trabalhos ganharem vida. É preciso alegria em tudo o que fazemos e o vermelho é vida, é alegria, disse ela.

Enquanto falava, bem perto dela, estava Dani, uma garota de doze anos, sua bisneta que atenta vigiava cada gesto da bisavó. A menina era pura alegria e orgulho ao lado da bisavó. Sorridente, disse que precisava cuidar de sua bisavó que anda meio esquecidinha. Mas, em seguida completou que não faz mal, a “bisa” anda meio esquecidinha apenas para coisas que não tem muita importância. Coisas importantes e que só a “bisa” sabe fazer, ela continua fazendo direitinho, uma mais linda que a outra e para confirmar sua fala apontou para os lindos trabalhos que a “bisa” faz incansavelmente.

 

MARI SATAKE

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