CANTO DO BACURI > Mari Satake: A cidade que desejo

 

É cheia de encantos. Nela posso andar a qualquer hora sem sustos nem medos. E, enquanto ando sossegada, posso parar para admirar as árvores floridas que colorem as ruas ou para procurar o pássaro que canta escondido em alguma delas. Nessa minha caminhada encontro bandos de crianças que vão ou voltam da escola, alegres e falantes. Nas praças, durante o dia, vejo grupos de pessoas de todas as idades, bebês com seus cuidadores, crianças ocupadas com suas brincadeiras, velhinhos e velhinhas elegantes em seus eternos jogos de lembranças e falações.

Quando chove na minha cidade, é só alegria. Não há enchentes e destruições. Nem há engarrafamentos quilométricos com faróis desregulados. Aliás, quando chove, o número de carros nas ruas parece que até diminui. As pessoas, de modo geral, usam muito pouco o carro particular. O sistema público de transporte é muito bem planejado e opera de forma que a locomoção entre as diversas regiões da cidade seja bastante rápida e segura.

É uma cidade de muito trabalho. Para cá, vem pessoas de todos os cantos do planeta. E para todos, sempre há o que fazer. Como tem muito trabalho, dinheiro aqui não é problema, é solução. Pobreza quase não se vê. Mas é claro que aqui também existem aquelas pessoas que vivem em situações precárias, sem lenços nem documentos. Mas, para elas existe um serviço social que as protege, basta que queiram. E se algum engraçadinho desgraçado quiser lhes fazer algum mal, terá que se ver com a justiça. E ela é bem feroz nestes casos.

Na cidade do trabalho, há trabalho para todos. Todos, desde que não sejam crianças. Crianças devem estudar e brincar. As escolas são públicas e de excelente qualidade. Só vão estudar na escola particular uma minoria, normalmente, os filhos de estrangeiros. São as escolas próprias para os filhos de estrangeiros que vem para cá apenas por uma temporada. Mas, mesmo entre eles, há os que preferem seus filhos na escola pública para que possam conhecer melhor a realidade do lugar onde moram.

Assim como as escolas públicas de excelente qualidade, também a saúde pública é de altíssimo padrão. Os melhores profissionais e equipamentos estão na rede publica. Ao nascer, a pessoa automaticamente ingressa no sistema público de saúde e tem ao longo de sua vida um acompanhamento médico preventivo. Desta forma, quando alguém procura por algum serviço fora de sua agenda, entende-se que é porque surgiu alguma emergência.

E as emergências são imediatamente atendidas. Com um sistema de saúde eficaz, a população de um modo geral é muito saudável e longeva. Como é uma cidade muito legal, muitas pessoas correm para cá em busca de trabalho e por aqui acabam se estabelecendo. Também elas recebem os cuidados da rede pública e acabam sendo incorporadas ao sistema.

É uma cidade de muito trabalho. Mas, como nem só de trabalho pode bem viver o homem, a cidade propicia a eles várias formas para se liberarem de suas tensões diárias. Os parques públicos e as praças são dotados de equipamentos e dispositivos para a prática de exercícios e jogos esportivos, sempre com acompanhamento técnico de profissionais qualificados. Há também uma extensa programação de espetáculos como peças teatrais, cinema, shows musicais e várias outras atividades voltadas ao lazer. Nem tudo que é oferecido é gratuito, mas o preço cobrado não é nenhuma exorbitância que um trabalhador não consiga levar sua família para assistir ao espetáculo.

A cidade que quero é muito legal. E quando acontecem os finais de semana prolongados, como o próximo final de semana, muitas pessoas ficam por aqui mesmo. Elas não sentem aquela necessidade de sair correndo, entupindo todas as saídas da cidade. É claro que muitos aproveitam e vão passear em outros lugares, afinal mudar de paisagem é bom e necessário para reciclar os sentidos. Os que ficam por aqui, podem se programar para bem aproveitar seus dias de forma saudável e de acordo com seus gostos pessoais. Há opções para todos os gêneros e preferências.

Mas a cidade onde moro ainda não é assim e como estou urgentemente necessitada, vou arrumar a minha trouxa e me refugiar em algum lugar onde eu não tropece com crianças e jovens maltrapilhos e drogados dormindo pelos cantos da cidade. Sei que quando eu voltar daqui a poucos dias, estará tudo igual, ultimamente nem durante o dia, podemos andar a pé pelas ruas dos bairros centrais sem termos algum susto.

A cidade onde moro é a cidade do abandono, tudo largado e mal cuidado. Mas tenho esperanças, tudo pode melhorar.

 

 


Mari Satake escreve semana sim, semana não neste espaço

marisatake@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

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