CANTO DO BACURI – Mari Satake: A dama do salão

Há anos era assim. Nas noites de segunda de carnaval, pontualmente ela entrava no salão as 23:30 horas. Nunca vinha só. Ao seu lado sempre um garotão de corpo bem constituído, ricamente trajado. Como ela.

Os antigos do clube diziam que ela era antiga frequentadora, desde criança ainda. O pai fazia parte do grupo de fundadores do clube. Foi ali nas dependências do clube que passou os anos de meninice e juventude. Depois, saiu do país para estudar. Casou-se. Anos mais tarde voltou ao país. Sem marido, sem filho. O pai já não era vivo. Ela, como única herdeira do pai, tinha direito ao título de sócio proprietário.  E, desde que retornou, nas noites de segunda-feira de carnaval ela marcava sua presença de forma radiante. Ela e seu parceiro, sempre os maiores foliões da noite.

Não se sabia mais nada dela. Quando ela retornou ao país e começou a frequentar a noite de carnaval, eram poucos os que a tinham conhecido quando o pai era vivo. Conforme o tempo foi passando, também aqueles poucos foram desaparecendo ou se afastando das atividades. Os que ali estavam para manter a associação eram como ela, os herdeiros. Nem sempre dispostos a arregaçar as mangas para cuidar do patrimônio coletivo.

E naquela noite de segunda-feira, nem bem ela entrou no salão, o maestro deu o toque e fez-se silêncio na banda. Na sequência, o mestre de cerimônias anunciou com toda a pompa, a palavra do presidente do clube.

Ele falou. Sem força e nem coragem para ser taxativo com nada, apenas anunciou que talvez fosse o último ano de atividades do Clube Esperança da Liberdade. O silêncio constrangedor aos poucos foi se transformando. As pessoas em voz baixa, como se temessem algo, apenas murmuravam entre si. O ambiente foi ficando nervoso.

E então, com a sua voz possante que antes nunca ninguém ali havia ouvido com tanta clareza, a dama do salão, quase desconhecida da maioria, disse saber muito bem as razões do nome do clube. E ela bem sabia que ali estavam presentes outros herdeiros dos defensores da causa original, assim como seu pai havia sido. Disse não ser a hora apropriada para discussões ou debates, porém, queria conversar com as pessoas que não desejavam o enterro da Esperança.  A esta altura, se juntaram a ela alguns dos herdeiros que havia mencionado e também alguns outros. Alguém sugeriu que já na quarta-feira de cinzas os interessados pela defesa da Esperança ali comparecessem as 19 horas. Assim combinado, o presidente do clube chamou às suas funções o também antigo mestre de cerimônias. O maestro e a banda retomaram o seu ritmo.

Naquela noite, ela, como das tantas outras vezes, dançou até não poder mais. Ela e seu parceiro. Exausta, tinha a sensação que um novo ciclo viria. Dali para frente, sem fantasias para si. Apenas trabalho para que a Esperança da Liberdade não morra. Jamais.

 

MARI SATAKE

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