CANTO DO BACURI > Mari Satake: A dançarina tardia

A menina sempre quis dançar. Mas, como poderia ela pensar em dançar se havia todos aqueles ovos e galinhas para cuidar. A família era grande, os recursos escassos. Havia a mãe que tudo decidia. Era ela, a mãe, quem decidia qual filho tinha o direito de prosseguir os estudos e qual o rumo daqueles que ela julgava que não valiam o investimento.

Para a menina já havia um plano traçado, ficaria com a sua família até atingir a idade adequada para se casar. O futuro marido já estava até acertado. Depois disso, ficaria por conta dela mesma e da nova família.

E assim, as coisas se deram. A menina se casou. Para sua sorte, o rapaz que lhe fora destinado, era um jovem de mente bastante aberta e com quem ela logo se entendeu bem. O sonho do jovem era sair do Japão para investir o pouco de dinheiro que possuía em terras brasileiras. Ele já tinha estudado algumas alternativas e teria o apoio de alguns parentes de seus pais que vieram para cá anos antes. Cabia a ela, sua jovem esposa ajudá-lo na decisão. Ele acataria o que ela resolvesse. Para ela, aquilo foi perfeito. Viu a possibilidade de criar um jeito novo de viver, só ela, seu marido e os filhos que teriam.

Aqui no Brasil, tiveram um tempo de adaptação. Fixaram moradia provisória em São Paulo onde tinham alguns parentes já estabelecidos e por um tempo viajaram pelo país, numa rota previamente estudada. Depois de um tempo, analisando os prós e contras de cada uma das alternativas, decidiram pelo interior do estado num ramo de atividades que ambos já conheciam. Ele, assim como ela, era de família que no Japão criava galinhas.

Ambos, logo que aqui chegaram amaram o caos de São Paulo. Mas, aqui, avaliaram, seria bom para morar quando já não precisassem mais batalhar pelo ganha-pão de cada dia e sem filhos pequenos para criar. Fizeram um pacto, se estabeleceriam no interior, teriam seus filhos, trabalhariam muito para poder dar a eles uma sólida formação escolar e, no futuro viriam viver em São Paulo.

Aquele futuro que almejavam chegou. Com os filhos já bem encaminhados e independentes financeiramente, vieram os dois para cá. Vivem aqui há quase dez anos e hoje, quem os vê, jamais imaginaria que viveram a maior parte de suas vidas trabalhando na pequena cidade do interior.

Ela, logo que aqui se estabeleceu, foi em busca de indicações para finalmente tentar realizar o seu sonho de infância, aprender a arte da dança. Não demorou muito e encontrou a sua professora. Aluna dedicada, faz duas aulas semanais e diariamente sozinha em sua casa estuda os passos e movimentos de sua coreografia e também de suas parceiras de grupo. Em pouco tempo, foi promovida a assistente da professora de dança.

Sozinha ou em grupo no palco, ela faz bonito. E depois do número apresentado, é a pura expressão da felicidade. Já ganhou prêmios e convites para se apresentar. Ano que vem ela deverá se apresentar num palco japonês. Mas, ela diz ter vergonha de se apresentar lá, ela própria se diz ser uma dançarina tardia. Não, não tenha vergonha. Dance e seja feliz com a sua arte. É o que importa.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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