CANTO DO BACURI > Mari Satake: A prática

Criança, ela via um livro que havia em sua casa e com muito cuidado, ficava olhando aquelas páginas meio amareladas com as letras pretas e os desenhos de cor cinza em vários tons desbotados. Ela não sabia ler ainda, imaginava que naquelas páginas estivessem escritas coisas falando daquelas figuras, a singela flor caída na beira do lago, a montanha imponente lá longe, o sapo na pedra, o galho de bambu, as folhas caindo em direção à terra. Daquele livro, ela nunca perguntou para ninguém e também só o pegava quando sabia que ninguém em casa a chamaria para fazer qualquer outra coisa. Ficava quietinha admirando os desenhos e com a ponta dos dedos acompanhava os traçados. Tinha outros livros em sua casa com o mesmo tipo de ilustração, mas aquele era especial.

Com o tempo, ficou sabendo que as ilustrações que ela tanto admirava eram resultado de uma antiga técnica de pintura japonesa levada ao Japão, o sumiê. Jovem ainda, recém saída da faculdade, achava que dali para frente, teria tempo para conhecer  a técnica e quem sabe, praticá-la em suas horas vagas. Iludida. Não deu certo. Logo ela percebeu que naquele momento não seria viável e seguiu pensando quem sabe um dia, lá longe.

Seguiu a vida. Nas suas supostas horas vagas, se é que isso existe, dedicou-se a várias atividades. Em cada época, uma coisa. Sempre na tentativa de buscar algo que a compensasse de suas pesadas horas de trabalho semanais.

Agora, ela se dá conta. O tempo passou. Aquele dia lá longe parece ter chegado. Já não está inserida no mercado formal de trabalho com inúmeras horas a cumprir pelo contrato estabelecido. Não precisou sair em busca do local e nem do professor que pudesse lhe transmitir a técnica. Se ela quiser, nas datas e horários determinados, o ilustre professor estará ali, pronto a lhe transmitir os conhecimentos que adquiriu ao longo de sua prática.

Ela pensa no professor, lembra-se das diversas obras que ele já produziu e conhece. Lembra-se de algumas histórias ou palavras que pessoas conhecidas já lhe falaram de suas relações com o professor. Lembra-se das poucas e sábias palavras do professor, nas suas poucas horas de contato com ele. Chega à conclusão. É um mestre. Sente-se grata pela oportunidade que teve e espera ter ainda por mais um bom tempo.

Sem ilusões, sabe que tudo depende apenas dela. Não há fórmula mágica para ninguém. A ordem é apenas uma. Praticar. Seja lá o que for. Não importa qual seja a arte escolhida. Ikebana, sumiê, shodô e tantas outras.  Como o zazen. Praticar. Praticar. Praticar.

 

MARI SATAKE

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