CANTO DO BACURI > Mari Satake: A visita

Logo cedo, no café da manhã receberam a notícia. Dentro de aproximadamente três horas, chegaria uma comitiva de São Paulo. Com a novidade, a maioria ficou alvoroçada. Para boa parte das internas, aquela foi a melhor notícia dos últimos dias. Rapidinho, se alimentaram e, em seguida, correram aos seus apartamentos para se arrumarem com esmero. Dona Sati era a mais nova interna, apesar de já terem lhe falado que, volta e meia, vinham grupos de pessoas para visitar a instituição, não estava entendendo o que acontecia. Foi então, se esclarecer com a assistente social e ficou sabendo que estava programada a vinda de alguns membros de determinada comunidade religiosa. Ao ouvir o nome da instituição, dona Sati ficou um pouco apreensiva. Ficou em dúvida se também iria ao grande salão para recepcionar os visitantes ou se, simplesmente, faria algumas de suas atividades habituais. Lembranças de seus primeiros tempos como moradora da capital do estado começaram a vir à tona. Tinha seus quase vinte anos. O primeiro lugar onde morou em São Paulo ficava justamente na mesma rua onde ficava a sede daquela instituição. Estaria ainda ali?

Lembranças e mais lembranças. Os pais tinham acabado de morrer naquele horrível acidente. Sem irmãos ou algum parente na cidade do interior, aceitou o convite de uma família antiga conhecida deles e que morava em São Paulo. Aceitaria o convite em parte. A família lhe propôs o emprego na loja de sua propriedade e moradia junto a eles, com a família. Agradecida, ela argumentou que poderia aceitar apenas o emprego. Com o salário que receberia, arrumaria algum lugar onde morar. Esta era a sua condição para vir a São Paulo. Apesar de não ser o esperado, aceitaram. Assim, ela veio e ficou trabalhando na loja. Quando chegou, já tinham lhe providenciado vaga numa pensão bem perto de onde trabalharia.

No interior, antes de se mudar, vendeu ou doou quase todos os pertences da família. A casa que era de seus pais e passou a ser sua, ela alugou.  Para sua sorte, logo ao nascer, seus pais, resolveram aderir ao catolicismo e escolheram para seus padrinhos um casal com quem tinham amizade. Durante anos, seu padrinho cuidou do imóvel e mensalmente lhe enviava o valor do aluguel.  Com isso, manteve o contato com a cidade natal por muitos anos. Só deixou de ir para lá com mais frequência, depois que o padrinho e, anos mais tarde, a madrinha faleceram. Naqueles anos iniciais da perda dos pais e mesmo depois, foram os seus padrinhos, suas grandes referências.

Em São Paulo, quando jovem e morava na pensão, Sati sentia uma grande atração por aquela instituição. Às vezes via monges carecas entrando ou saindo. Passava em frente, tinha vontade de conhecer, mas nunca entrou. Até doações anônimas, por intermédio de conhecidos, chegou a fazer.

Porém, não morou naquela rua por muito tempo. Os fatos em sua vida foram conduzindo-a para outros empregos e moradias.  Também, logo percebeu que para conseguir melhor trabalho, precisaria voltar a estudar. Determinada que era, trabalhava de segunda a sábado, frequentava a faculdade no período noturno e os domingos eram dedicados aos afazeres domésticos como cuidados com a limpeza de onde morava, com as roupas e ainda os estudos. Por alguns anos sua vida era trabalho e estudos. Agora, ela pensa. O que mais fez, alem de estudar e trabalhar?  Casar, ela até se casou, mas não demorou muito e se viu viúva e sem filhos. Depois disso, outra vez, se afundou no trabalho e estudos. Tanto tempo se passou. Não. Não reclama. Teve a vida que mereceu e pôde ter.

Agora ali, interna numa casa de idosos, com suas limitações físicas, a simples menção do nome daquela instituição religiosa fez com que tantas lembranças lhe viessem à mente, ela quer entender e decide. Irá ao salão e participará da cerimônia. Quando jovem e morava lá do lado, tantas vezes ela quis ir e não conseguiu, por uma ou outra razão, agora, ela pode e nem precisou ir até lá. A cerimônia veio até ela.

E ela se entregou à decisão de participar. Ela não sabe por que e nem se importa em saber. Ela apenas se vê tomada por uma intensa alegria. E como a menina das missas dominicais em que ia com a mãe e cantava a pleno pulmões, agora, com a letra no papel que o aprendiz lhe entregara, ela acompanha e timidamente canta.

 

MARI SATAKE

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