CANTO DO BACURI > Mari Satake: Amizades

Eliza era amiga de minha irmã mais velha.

Fizeram o mesmo curso na mesma universidade, no mesmo período de tempo. Eliza era aluna do curso diurno, minha irmã do noturno. Não sei como aconteceu, mas um dia se conheceram. Logo descobriram que tinham amigas em comum. E boa parte delas, de alguma forma, tinha alguma relação com a nossa cidade natal. O pai de Eliza, enquanto jovem morou na cidade por alguns anos. Amélia viveu lá até os oito anos de idade. Minha irmã dizia que se lembrava de Amélia e seus irmãos e irmãs brincando no enorme quintal da casa em que moravam. Clarice não era da cidade, mas tinha uma tia lá e sempre que dava ia passar alguns dias na cidade. A tia era mãe de Yolanda, prima querida de Clarice. E Yolanda era colega de classe de minha irmã durante o curso ginasial e boa parte do Clássico.

A partir destas pequenas descobertas, o grupinho passou a se encontrar com bastante frequência. Era o grupinho das meninas. Estes encontros aconteciam, na maior parte das vezes, após o expediente comercial na loja da mãe de Eliza.  A loja era um misto de boutique de roupas, calçados e acessórios e salão de beleza. É claro que a loja tinha também os produtos de beleza. Shampoos, cremes, batons, sombras e tudo e mais um pouco para satisfazer a vaidade feminina.

Naquela época, quando minha irmã dizia que ia se encontrar com as meninas, eu já sabia que ela só iria voltar lá pelas dez, onze da noite toda carregada de sacolas com as novidades que encontrou na lojinha. Era bom. Minha irmã sempre se lembrava da gente. Eu e minha irmã do meio.

A vida anda. Uma das meninas foi vítima de um terrível assalto a mão armada. Depois daquilo, ela nunca mais saiu de noite. Sua vida passou a ser apenas: casa e trabalho, trabalho e casa. E sempre à luz do dia. Outra das meninas recebeu uma proposta de trabalho irrecusável. Mudou de cidade e de estado. Logo depois, arrumou um namorado americano, juntou os trapos e foi embora do Brasil. Minha irmã se casou, teve suas meninas. Mãe dedicada, empregada “Caxias”. Por bons anos, viveu a maratona da dupla jornada. Eliza com o passar do tempo, assumiu a loja da mãe. Assumiu e ampliou os negócios.

Andando sempre na cola da minha irmã mais velha, acabei conhecendo Eliza e sua “lojinha” que de lojinha não tinha nada. Era sim, uma ótima loja. Houve época em que fui trabalhar numa empresa que tinha sua sede bem próxima da loja de Eliza. Acabei virando cliente de alguns dos serviços ali oferecidos. Tornamo-nos amigas. De vez em quando, íamos ver alguma peça de teatro, algum filme. Eliza tinha algumas amigas com quem viajava. Por duas vezes, me juntei a elas e fizemos bons passeios.

A vida não para. Sempre anda. Mudei de emprego, mudei de ares. As notícias foram se espaçando, muitos anos se passaram.

Um dia, visitando uma exposição com minhas irmãs, encontramos Eliza. Também ela visitava a exposição com suas irmãs. Foi um feliz reencontro.

Depois disso, voltamos a nos ver algumas vezes. Sempre rápidos encontros e sempre com a promessa de ambas, precisamos marcar um dia para nos falarmos com mais folga. Assim se passaram alguns anos. E este ano, logo no comecinho, nos empenhamos. Deu certo.

Fui conhecer o novo espaço que Eliza construiu. Claro e harmonioso. Em suas reflexões sobre o fazer na vida, Eliza falou de seu estado atual. Já não tem grandes anseios e nem medos. Acredita. Fez tudo certo. Passou por poucas e boas na vida, agora está bem e sente-se grata à vida, às oportunidades que a vida lhe ofereceu. Tranquila, falou de seus sonhos e projetos para os longos anos daqui para frente.

 

MARI SATAKE

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