CANTO DO BACURI > Mari Satake: As amigas

Celina é do interior de Minas. Foi casada com João. Com ele teve dois filhos. Criou os filhos para serem fortes e independentes. Soltou-os no mundo. Outro dia, ficou sabendo. Ia ser avó e a filha a convidava para ir passar uns dias na cidade onde estava morando, logo que a criança nascesse. Celina foi. Ficou com a família da filha por alguns dias. Voltou logo, o trabalho a chamava.

Mês que vem, Celina faz sessenta e oito anos. E continua batendo ponto na empresa onde começou a trabalhar assim que se formou, bem antes das crianças nascerem.

Marilda é do interior de Goiás. Interior mesmo. Sempre brinca dizendo que nasceu no meio do nada. Passou a infância ali, no meio do nada. É certo que onde morava, tinha a casa de sua família, as casas de outras famílias, a pequena igreja onde o padre aparecia de vez em quando, o comércio onde se encontrava de tudo no mesmo local, o posto de saúde onde o médico e a enfermeira apareciam de vez em quando. Ah, mas a escola! A escola era da professora que morava ali mesmo com seu filho Pedro. Foi com ela que aprendeu a gostar do mundo e das gentes de todos os cantos do planeta. Mas em suas lembranças de infância, o que vêm à sua mente, é a imensidão de terras e muito verde.

Uma imensidão a perder de vista. Bem diferente da grande cidade para onde teve que se mudar logo no início da adolescência.

Chegou a São Paulo, depois de morar em muitas outras grandes cidades. No Brasil e no mundo. Foi casada, teve filhos. Hoje soltos por aí. Descasou na época em que mulheres de boas famílias não se descasavam. Começou a trabalhar depois da separação. Veio para São Paulo a trabalho inicialmente por um período de três meses, depois mais três, depois mais seis. Acabou ficando. Está aqui há trinta anos quase.

Lena é do interior do Paraná. Quando adolescente dizia detestar a cidade em que morava. Achava muito sem graça aquela cidade. Boa era a cidade onde moravam os tios e primas no interior de São Paulo. Quando estava para completar dezoito anos veio morar em São Paulo. Entrou na faculdade. No começo, a vida aqui não foi muito fácil. Morou em pensionato para moças, em república de estudantes, depois com os irmãos. Mas mesmo assim, amava morar em São Paulo. Estudou e trabalhou muito aqui na cidade. Conheceu Paulo. Apaixonou-se perdidamente. Casou. Ele tinha um sonho. Ela embarcou com ele. Viveram por anos se embrenhando nos lugares onde quase ninguém queria ir. Sempre trabalhando em prol do outro. Os sonhos de Lena ficaram meio esquecidos por muitos anos. Passou a maior parte de sua vida, agarrada ao sonho de seu companheiro. Um dia ele não acordou.  Viúva, Lena ficou ainda naquele distante lugar por algum tempo, tomou todas as providências necessárias para sair dali sem nenhuma pendência e com tudo ajeitado, juntou algumas poucas coisas e se mudou para São Paulo onde vivem seus irmãos e onde sempre quis morar, desde que aqui chegou para estudar, há tantos anos. Não demorou muito para Lena se ajeitar por aqui novamente. Lena ainda trabalha algumas horas na semana. Diz que continuará trabalhando apenas o suficiente para exercitar seus neurônios.

Lena e Marilda são as amigas de Celina com quem volta e meia me encontro para irmos ver algum filme em cartaz. De vez em quando, dá certo e me reúno às três quase inseparáveis “amigas de infância”.  Marilda é quem sempre diz que são amigas de infância, sim. Afinal, desde que se conheceram uns dezoito anos atrás, tornaram-se o inseparável grupo das três do curso de francês.

 

MARI SATAKE

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