CANTO DO BACURI > Mari Satake: As filhas do seu Mário

Quando meninas eram as filhas de seu Mário.

As duas mais velhas eram de idade bem próximas. Como um par de vasos, andavam sempre juntas, apesar da diferença de temperamento das duas. A mais velha, como a atender o desejo da avó, era uma menina com ar recatado, postura e gestos delicados, fluente na língua dos avós, um doce de menina. Já a outra, era toda espoleta. Magrela, de canelas finas e longas, vivia a correr pelo quintal da casa e da vizinhança. A casa onde moravam tinha um enorme quintal. Cheio de árvores. A magrela vivia dizendo que se pudesse morava no alto das árvores. Um dia iria conseguir fazer uma casa bem forte e com uma boa escada de acesso, assim todos poderiam entrar e sair da casa com facilidade.

Seu Mário tinha ainda dois filhos homens e uma outra menina. A caçula da família. Era toda diferente das irmãs e dos irmãos, mas quando queria e achava necessário, sabia muito bem se comunicar com as pessoas. Talvez pela grande diferença de idade entre ela e os outros filhos, a caçula parecia viver num outro universo. Bem distante dos irmãos. Embora na maior parte do tempo estivesse entretida e ocupada com o seu mundinho particular, a pequena sabia tudo o que se passava entre os irmãos. Nas encrencas que surgiam entre os mais velhos, era sempre ela quem sabia justificar as atitudes de um e de outro. Ela sempre encontrava um jeito de apaziguar o ânimo exaltado dos oponentes. Na realidade, na maior parte das vezes, eram os três do meio que se encrencavam entre si. Quase sempre, era a magrela arrumando encrenca com os dois meninos. Os dois sempre se uniam contra a espoleta da irmã que vivia querendo passar a perna neles. Aquelas encrencas se resolviam logo. Não demorava muito e estavam os três aprontando novamente as suas.

A vida anda. A mãe sempre dizia.

Chegou o dia que os irmãos partiram. Eram aqueles tempos em que conseguir uma vaga numa boa universidade pública não era tarefa das mais fáceis. Um foi para a capital do estado. O outro foi para outra cidade grande no mesmo estado. A irmã mais velha já estava na faculdade também. Na própria cidade. Chegou a vez da magrela.

Queria fazer o mesmo curso da irmã. Passou o ano inteiro tentando convencer a irmã e os pais que melhor seria ir para a capital. Tanto falou que acabou convencendo-os. Ela conseguiu a vaga que queria. A irmã também conseguiu a transferência. Partiram as duas.

No interior ficaram os pais e a mais nova. Anos depois, também ela partiu da cidade do interior. Adultos, cada um seguiu o seu rumo.

Hoje, restam as irmãs. Novamente próximas. Uma cuidando da outra.

 

MARI SATAKE

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