CANTO DO BACURI > Mari Satake: As gavetas de Celeste

Celeste é minha amiga já há muitos anos. Frequentávamos o mesmo grupo de terapia. Naquele grupo dava de tudo. Atriz e ator em início de carreira, escritor em busca de editor, psiquiatra desajustado com a profissão, donas de casa cansadas de marido e filhos, bancários infelizes, professores mal pagos, cozinheiro envergonhado, advogado querendo se libertar da timidez, engenheira que sonhava pescar peixes nos rios de São Paulo. Os encontros aconteciam nas noites de quarta-feira num daqueles velhos casarões da Vila Clementino e que hoje já nem existem mais.

Éramos jovens naquela época. Depois de um dia inteiro de trabalho, nas noites das quartas-feiras corríamos para lá e, dávamos a cara e o corpo para bater. Era um trabalho sem tréguas. Mas o incrível era que saíamos de lá com energia suficiente para terminarmos a noite em algum restaurante ou boteco. E sempre tinha alguém sugerindo uma festa ou reunião no próximo sábado ou domingo. Foi numa destas ocasiões em que tínhamos uma festa por perto de onde eu morava que Celeste me perguntou se ela poderia dormir em minha casa. Aceitei de bom grado. Celeste e eu nos entendíamos bem, sempre tínhamos muito assunto para conversar antes ou depois do trabalho grupal.

Depois daquele dia da festa, ficamos mais próximas. E mesmo com o término do trabalho daquele grupo continuamos a nos falar com regularidade e até mesmo a nos frequentar em nossas casas. Na verdade, era mais eu quem acabava indo à casa de Celeste, pois ela tinha as crianças que viviam com ela a maior parte do tempo. Numa daquelas vezes, um dia, angustiada Celeste me perguntou como lido com as gavetas. Não entendi a pergunta de Celeste. Como assim? Lidar com as gavetas? Traduza-me. E Celeste querendo saber se as gavetas de minha casa estavam sempre arrumadas, com tudo em ordem. Respondi que não, conforme o uso, elas iam se desarrumando e quando eu começava não achar as coisas nelas, eu tratava de tirar tudo fora para arrumar novamente. Celeste começou a falar que desde que se entende por gente, nunca conseguiu ter u ma gaveta arrumada e suas gavetas desarrumadas a exasperam de forma tal que ela já deve ter brigado com a família toda por conta disso. E adivinhe por que motivo ela procurou aquele grupo de terapia onde nos conhecemos? Foram as tais gavetas desarrumadas com as roupas das crianças. E ela mesma enquanto falava, ria de si. E eu, ria da forma como ela dizia tudo aquilo.  Até provoquei-a oferecendo-me para arrumar suas gavetas. Claro que ela não aceitou.

Com gavetas arrumadas ou desarrumadas seguimos em frente com nossas vidas. Cada uma dando conta de suas atribulações. Atolando-nos com nossas obrigações, nos afastando de nossas conversas, de nossos encontros. Tantos anos se passaram.

E, um dia, numa reunião em casa de amigos em comum daqueles velhos tempos, chegou até mim, uma jovem mãe com sua criança em seus braços. Era Lilian, a filha de Celeste. Ficamos ali conversando, falando dos velhos tempos. Não demorou muito e Celeste deu sinal de vida.

Desde que nos reencontramos já se passaram cinco anos. Celeste está aposentada, mas, continua trabalhando e todo ano diz que é o último. Chega o ano seguinte e lá vai Celeste novamente. Diz que quando deixar o trabalho, não saberá o que fazer de suas horas livres e por isso continua trabalhando.

Semana passada Celeste me ligou para irmos ao cinema. Não pude acompanhá-la. Sugeri nos encontrarmos na semana seguinte. Celeste disse que não seria possível, seria sua última semana de férias e quer ficar em casa para arrumar os armários, os livros e as gavetas. E ontem, Celeste novamente me ligou para vermos outro filme. Outra vez, não pude ir. Mas estranhei. Perguntei de suas arrumações, de suas gavetas. Sua resposta foi, – Ah! Vou deixar isso de lado.

 

MARI SATAKE

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