CANTO DO BACURI > Mari Satake: Casamento tardio?

 

 

Magda é amiga antiga. Dos tempos em que ainda, acreditávamos que o futuro era todo nosso, cheio de glórias. Naquela época, Magda tinha um namorado firme, como ela gostava de dizer. Eu, de minha parte, nunca entendia aquele namoro. Quase todo dia ela chegava ao colégio dizendo que um dia mataria o namorado. Enfurecida, falava das últimas que ele havia aprontado e depois caia em prantos. Com o olho fininho e inchado, nariz vermelho como um pimentão, ela assistia a primeira aula. Aos poucos, ia se esquecendo das brigas com o namorado galanteador e se integrando às atividades e aos colegas. Apesar de nunca entender aquele namoro conturbado, éramos muito amigas. Nunca dei um palpite e nem falava nada do que pensava a respeito daquilo, só achava que ela perdia tempo sofrendo e se doendo daquele jeito.

E em crise levaram o namoro e depois noivado por longos anos. Muitos longos anos. Os dois terminaram a faculdade, arrumaram emprego, compraram uma casa, montaram ela com tudo que um casal de classe média acha que é de seu direito. Com tudo pronto e sem nada que ali não houvesse, a não ser os dois principais donos do pedaço, tomar posse da casa e assumir a vida a dois, nunca fizeram. Só brincavam de casinha nos finais de semana e sempre com a presença de amigos, muitos amigos.

Um dia, finalmente, Magda se encheu daquilo. Anunciou ao noivo quase eterno que estava saindo fora. Ele podia fazer o que bem entendesse, o que ela havia investido ali era tudo dele. Ela nada mais queria. Apenas distância dele e de todas as lembranças. Pediu afastamento da universidade, demissão da outra escola, juntou umas poucas coisas numa valise e deu adeus a todos. Viajou muito, conheceu pessoas de todos os tipos e por fim, para prolongar sua permanência na Europa, conseguiu se engajar num programa de especialização na sua área de formação.

Voltou ao Brasil, quase cinco anos depois. Refeita, amadurecida, não quis se reintegrar àquela antiga vida acadêmica que levava, antes de sair do Brasil. Não sei direito o que Magda faz, sei que trabalha muito em projetos educativos para populações que vivem afastadas dos grandes centros urbanos. Magda reinventou seu jeito de viver.

E agora, o que é que ela nos traz?

Um enorme convite de casamento. O nome do noivo não me é estranho. Pergunto quem é. Ela responde perguntando se me lembro de assim, assim assado. Sim me lembro. Mas ele havia se casado com a prima de Joana. Magda dá risadas, diz que estou desatualizada. Há muitos anos que ele se separou dela. E completa, ele apenas se juntou com a prima de Joana, tiveram um filho e depois de cinco anos se separaram e isso já há décadas passadas.

Brinco com Magda e pergunto se entrará na igreja de vestido branco com véu e grinaldas. Orgulhosa, ela diz que sim. Vai realizar seu antigo sonho de menina e completa dizendo que terá direito a dama de honra e tudo mais que sempre sonhou enquanto jovem. Serão três daminhas de honra, suas queridas sobrinhas netas.

E eu, só posso lhe desejar que sejam felizes para sempre, apesar de tudo e de todas as mazelas que o pequeno cotidiano haverá a lhes oferecer. Magda não se aborrece e rindo conta das rabugices que o encantado noivo vive lhe fazendo. E diz que já o alertou: quem largou tudo e foi embora uma vez, não hesitará em repetir a história se preciso for. Ele que se cuide e trate de andar na linha se quiser envelhecer desfrutando da jovialidade e atenção dela.

Felizes vidas é o que lhes desejo.

 


Mari Satake escreve semana sim, semana não neste espaço. marisatake@yahoo.com.br

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