CANTO DO BACURI > Mari Satake: Dare mo shiranai

Meu amigo Juquinha é assim, gosta sempre de fazer mistério sobre tudo. Dia desses quis lhe passar um recado. O assunto era triste. Telefonar e falar com ele era impossível, ele nunca se deu ao trabalho de me fornecer o número de sua casa, apenas o comercial. Ainda bem que pelo menos, abriu seu webmail naquela noite de feriado. E normalmente, nem fico sabendo se recebeu ou não a mensagem. E não é que desta vez ele sinalizou que recebeu? Horas mais tarde, mandou-me um link recomendando um filme que não imaginava que voltaria a ver.

É claro, rapidinho respondi. Não só respondi agradecendo, como ainda logo tratei de assistir novamente!

Nobody Knows, filme de Kore-eda. Lembro-me que quando assisti no cinema, fiquei muito chocada. Fiquei com uma sensação de desamparo terrível, com dores pelo corpo todo. Voltei a pé para casa. Atravessei a Paulista todinha a pé. Acho que nunca fiquei tão afetada por um filme como naquele dia.

Depois de algum tempo, já tendo visto outros filmes do diretor, um dia, conversando com minha sobrinha, ela me falou do quanto também ficou impressionada. Ficou tão incomodada que precisou saber mais do diretor e do filme. Baseado em fato verídico ocorrido no final dos anos 1980, ela acha que o diretor fez uma bela homenagem àquelas crianças, vítimas da tresloucada mãe/sociedade japonesa. Segundo ela, a história na qual se inspirou Kore-eda é muita mais trágica e dura.

Revi o filme. Outra vez, não foi fácil. Faço a conta: 1988, 12 anos. 2012, 36 anos. Por onde andarão Akira e os outros? O que estará fazendo aquele irmão mais velho? Terá ido para a escola e treinado no time de baseball? Será que casou e teve seus próprios filhos? Estarão todos vivos? Foram à escola? E a talentosa pianista? Estará tocando para alguma plateia? E o irmãozinho terá conservado a alegria em ver a vida brotando? Por onde andarão?

Não importa. Importa que tenham sobrevivido. E a mãe, teria arrumado mais filhos?

Nobody Knows, Dare mo Shiranai, filme de Kore-eda, passou por aqui como Ninguém pode saber. Ficção baseada em fato ocorrido na cidade de Tóquio em 1988 que ficou conhecido como os quatro abandonados de Nishi-Sugamo. Mostra a rotina das quatro crianças abandonadas pela mãe em um minúsculo apartamento recém-alugado. Com o pretexto de trabalhar em Osaka a mãe as abandona deixando uma pequena soma em dinheiro para que o filho mais velho, Akira, cuide das despesas da casa.

Akira, o mais velho, tem doze anos e nunca frequentou a escola, assim como seus irmãos. Ele, ao menos, tem existência legal. É registrado, sabe quem é seu pai e goza do direito de entrar e sair de sua casa. Seus irmãos, filhos de pais diferentes, sequer foram registrados pela irresponsável mãe. A eles cabe o confinamento dentro do apartamento. Confinamento que deve ainda ser silencioso para que nenhum vizinho escute suas vozes. Também não podem se deixar serem vistos, portanto devem ficar longe da área de serviço. Akira, apesar da pouca idade, age como pai e mãe de seus irmãos. Consciente de que se procurar a ajuda de vizinhos ou do serviço social da cidade os irmãos serão separados, fato que tornará tudo muito mais difícil para os quatro. Desta forma, sustenta o pacto com a mãe. Assim, calado se desdobra para manter a união entre eles. O dinheiro, no entanto, vai acabando e aos poucos vão ficando sem gás, água e luz no apartamento. Vivendo precariamente naquele apartamento lotado de lixo e sujeira, sem ter o que comer, já não faz sentido algum manter seus irmãos confinados ali dentro.

Decide que todos podem sair. Alegres, as crianças ganham a rua e a praça próxima. Encantam-se com a planta cujo algodãozinho voa ao mínimo sopro. Enquanto enchem suas mãozinhas com as sementes, Akira providencia a terra para que possam mais tarde semea-las ao voltar para casa. Por dias, cuidam da vida que desponta no vaso improvisado. Vida que é tão frágil quanto à delas próprias e que não resiste por muito tempo. Também as crianças não conseguirão sobreviver daquela forma por muito mais tempo.

A pequena Aki, logo após completar cinco anos, não resite à queda de uma cadeira. Desesperado, Akira procura sua única amiga. A solitária amiga bem nascida. É com sua ajuda que Akira se dirige ao aeroporto de Haneda carregando a mesma mala em que a irmãzinha chegou escondida no novo apartamento alugado pela mãe. Agora Aki é apenas um corpo gelado e inerte, mas Akira cumpre a promessa feita no aniversário e a leva para ver as chegadas e partidas dos enormes aviões em Haneda e é ali mesmo, sob as luzes de Haneda, que decide enterrar a irmãzinha escondida na mala.

Nobody Knows, filme de 2004, mostra um aspecto da sociedade japonesa que não estávamos acostumados a ver nos filmes que falam das famílias japonesas. Baseado em acontecimentos reais envolvendo pessoas da baixa classe média, retrata a sociedade atual onde é imperioso ter o dinheiro para comprar e pagar. Se não há dinheiro, nem olhar haverá. Se não se olha, não se enxerga. Também, não se sabe. Dare mo shiranai. Ninguem sabe. Ninguém pode saber.

Merece ser visto.

 

MARI SATAKE

MARI SATAKE

marisatake@yahoo.com.br
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