CANTO DO BACURI > Mari Satake: Despedida

O calor era insuportável. Há horas armava-se no céu o que viria logo mais, mas lá no salão ninguém havia se dado conta. Estavam todos muitos entretidos com o trabalho a ser feito. Cada um em sua mesa, o mestre lá na frente, ora falando com um, ora com outro. A cada um de seus alunos, sempre uma palavra de estímulo, a melhor palavra que lhe caberia.

Ao final, satisfeitos com a tarefa cumprida, dirigiram-se ao salão de chá. Aliviados pelo cumprimento da tarefa, as pessoas começavam a ser dar conta. Lá fora, uma imensa tempestade castigava a cidade. Sentados à mesa, conversavam. Tomando seu chá, comiam, falavam de amenidades. Tudo na medida, moderadamente. Esgotado o tempo, aos poucos, foram se levantando. Também aos poucos, a aflição foi surgindo em seus olhares. Era a longa distância que um tinha que percorrer até chegar em seu lar. Era o neto que aguardava a avó na escolinha. A chuva persistia. A mesa já
estava desfeita. As pessoas começavam a se dispersar, sentavam-se em pequenos grupos, outros decidiram ir andando, mesmo debaixo da chuva menos forte. Mas a chuva não dava trégua. Quase todos se foram. Ali permaneceram apenas uns e outros.

Ela se lembrou, havia contas a serem pagas. Armada com o imenso guarda-chuvas, saiu para ver os estragos pelas ruas. Tudo molhado, imensas possas de água pelas calçadas e guias. Quadras da rua central às escuras. Lojas com as portas cerradas com medo de possíveis invasões que poderiam ocorrer. Só um e outro comerciante com as portas levantadas. Conseguiu chegar ao banco, sorte! Conseguiu pagar suas contas. Voltou em tempo para se reunir ao grupo com quem havia se comprometido.

Logo mais, sairão em grupo para uma última vez com o amigo que volta ao país de origem. Não. Desta vez, o amigo não levará em sua bagagem a camiseta da seleção brasileira, como tantosoutros seus compatriotas fizeram em outros tempos. Agora, seus amigos daqui e que aqui ficam, não fazem questão nenhuma que ele vista aquela camiseta verde/amarela/azul/branco. Não! Ele não levará a camiseta da seleção. Ele próprio disse que simpatiza com uns e outros times de futebol da cidade, mas não queria escolher camiseta de nenhum dos times para não magoar nenhum dos bons amigos que aqui fez. Alguns amigos fizeram melhor. Presentearam-no com a camiseta de seu próprio time de coração. E para espanto geral, não ganhou nenhuma camiseta representante do time dos supostos donos da cocada preta da cidade.

Apesar de tristes pela sua partida, todos, mesmo sem nada dizer, concordam. Trazer a jovem esposa para viver neste sombrio país não é coisa para quem não é doente da cabeça. É melhor mesmo que comece sua vida ao lado da mulher que escolheu e dos filhos que quer ter em sua país de origem. Vá, bondoso amigo! Seja muito feliz e obrigada pelo bom tempo de convívio que nos proporcionou.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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