CANTO DO BACURI > Mari Satake: E ela fez sessenta anos

Naquele dia ela não estaria para ninguém. Ficou só, reclusa consigo mesma. Acordou bem cedo, se arrumou toda e saiu. Sem destino definido, apenas saiu de casa e foi andando. O dia estava bonito. Era quinta-feira. O dia da semana que mais gosta. O verão que se aproximava prometia muito calor. Ela foi andando apenas sentindo o vento suave em seu rosto.

Sim, é isso. Iria passar o dia naquela cidade litorânea. Foi para lá tantas vezes, mas nunca a passeio. Sempre com pressa, muita pressa. Reuniões, visitas de inspeção, reuniões novamente. Muitas vezes, mal tinham tempo para almoçar. Daquelas idas à cidade, ficava sempre se prometendo que nas próximas férias, reservaria alguns dias para descer até ali e sentir como seria viver naquela cidade. Achava que seria boa para se morar depois que não precisasse mais trabalhar como empregada.

Engole em seco. Aposentada!? Sexagenária!? Eu!???

Rapidamente se olha no espelho, não se vê abatida e nem acabada como naqueles últimos anos em que corria por São Paulo e seu entorno. Tanta correria para quase nada de resultados positivos. Passou. Felizmente passou. Ela sorri com a ironia dos fatos, está indo justamente para a cidade onde ia tanto a trabalho naqueles infelizes tempos. Ela se retifica. Naqueles e em outros. Desde sempre, volta e meia se via em projetos naquela região. Na cidade ou em seus arredores. E nem todos foram ruins. Teve bons e felizes momentos com muitos dos estudos ali realizados. Mas eram outros tempos, ela pensa.

Agora, o que importa, é o que vem pela frente. Ela foi ensinada a pensar que tudo tem a sua razão de ser. Então, que assim seja.

Sorri. Tem a bela cidade à sua frente. Por algumas horas irá desfrutá-la. Por enquanto, seu plano é apenas encontrar um bom restaurante onde possa ser bem servida. Quer apenas comer e beber algo que faça bem ao seu corpo e alma. Depois, apenas andar à beira do mar. Ela sabe que nesta região, apesar da beleza da cidade, é melhor não colocar seu corpo em contato com a água do mar. Para banhos é melhor subir um pouco mais. Mas, agora não. Quem sabe mais tarde?

Na região onde se encontrava, havia vários restaurantes com caras convidativas. Fez a sua escolha e deu sorte. Mais tarde, andou a pé pela cidade. Até passeio de bonde ela fez. Final de tarde, cansada, mas feliz com seu dia solitário, ela resolveu tomar o rumo da serra. Antes, ainda se deu um regalo. Na confeitaria.

Já era noite quando subia a serra e ela se deu conta. Estava feliz. Fazer sessenta anos estava sendo libertador. Sim daqui para frente não iria mais esconder a sua idade, nem se envergonhar de suas tantas horas livres. Eram todas suas e bem merecidas.

 

MARI SATAKE

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