CANTO DO BACURI > Mari Satake: Encontro fortuito?

Pontualmente ele chegava. Com passos ligeiros dava um bom dia a todos em alto e bom som enquanto caminhava até sua mesa. Ao chegar, nunca se sentava de imediato. Parava e com a pasta ainda em seus braços ele tudo parecia conferir. Primeiro, olhava lá para o fundo da enorme sala e à medida que seu olhar ia se aproximando de sua mesa, sua atenção parecia se redobrar. Tudo conferido lá para trás, puxava sua cadeira, depositava a pasta na mesa de apoio e ainda em pé, começava a inspeção da parte frontal da sala. Só se sentava após tudo conferido. No departamento todos sabiam, enquanto ele estava em sua inspeção matinal ninguém podia lhe dirigir a palavra. Interrompê-lo naquele momento inicial da manhã era azedar o ambiente para o resto do dia.

Dele pouco se sabia. Diziam que chegou à empresa ainda jovem. Era bolsista e estava na Universidade desenvolvendo pesquisas. Coincidiu que no final de sua bolsa, a empresa estava precisando de um profissional na sua área de especialização. Primeiro, trabalhava dando apenas consultoria. Não demorou muito e logo foi convidado a fazer parte da equipe de projetos especiais. E daquela antiga equipe de trabalho, só restavam ele e dois outros engenheiros.

Minha passagem por ali foi breve. Pouco mais de um ano. Naquela época, eu era iniciante na área. Ele, já um profissional sênior. Nunca mais o encontrei e quase já nem me lembrava de sua existência. Lembranças de tantos nos passados.

E agora “José”, por que me vêm à lembrança?

Também ele, já não exerce a profissão dos anos de juventude. Também ele, ao se deparar com os anos de vida que teria à sua frente, decidiu que dali para frente tentaria fazer tudo diferente. Como um iniciante foi em busca de novos aprendizados, novos prazeres. Também ele.

O encontro se deu diante de uma obra exposta na exposição de um mestre de pintura. Um encontro casual. Um reconhecimento. E ele se lembrou de meu nome. E eu me lembrei do nome dele. Ficamos ali um bom tempo. Conversando. Lembrando aqueles distantes dias e os acontecimentos que nos envolveram. Falou-me de coisas que eu não sabia. Falei-lhe de coisas que ele não sabia. Tão distantes pensávamos estar um do outro naqueles tempos. E tão próximos estávamos sem saber.

Anoitecia. Era hora de retomar o curso de nossas vidas. Compromissos me esperavam. Ele também. Provavelmente, mulher e jantar o aguardavam. Na despedida, um caloroso aperto de mãos. Quem sabe até uma próxima exposição? E a promessa mútua de nos mantermos fiéis a nosso propósito de bem viver a vida que nos cabe.

 

MARI SATAKE

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