CANTO DO BACURI > Mari Satake: Enganos e desenganos

 

Ela chegou brava. Falou que já não quer saber de mais ninguém. Retificou-se. Não queria saber de mais ninguém para ficar, namorar ou casar. Dali para frente, iria apenas cuidar de estudar e depois trabalhar, trabalhar e trabalhar.

Tão novinha e bela que é a menina, pedi para me explicar melhor. Em prantos, começou a falar de seu último ficante, quis saber o que acho dele. Antes que eu falasse qualquer coisa, foi falando de seu desencanto. Estavam muito amigos, viviam trocando livros e ideias. Muitas ideias e sonhos que ela tinha. E achava que seus sonhos eram os mesmos que ele tinha. Não eram.

Fiquei sabendo que ele é descendente dos primeiros imigrantes que vieram para a América Latina. Conheceram-se no final do ano passado, faziam o mesmo curso na faculdade, ele dois anos adiantado. Aos poucos, a amizade foi se fortalecendo. Um dia, ela o levou para sua casa. Seus pais gostaram dele, os laços foram se estreitando. Ele lhe falava muito de seu país, o Peru. Com ele, ela iria fazer os muitos passeios que vinha fazendo apenas em sua imaginação enquanto o ouvia. Já havia conseguido convencer seus pais a lhe autorizarem a viajar no final do ano. Estava tudo tão certo e agora, tudo foi por água abaixo.

Quero saber por que brigaram. Ela diz que não brigaram e se dependesse dele, nada mudaria entre eles. Ele não sabe de nada, diz ela. Por ele, viajariam, mas ela é que não quer mais. Diz que estava equivocada, sonhava e fazia planos que na prática jamais se concretizarão. Sendo assim, é melhor mudar de canal desde logo.

 

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Eles se conheceram aos quinze anos. Começaram a namorar. Ela quietinha e bem comportada. Ele sedutor, bom de conversa, galanteador que só ele sabia ser. Era filho de filha de Maria de Padre Pedro da paróquia do bairro. A mãe sempre o quis casado com uma boa moça. A namorada era bonita, prendada e de boa família. Ficaram noivos. Um longo noivado. Ela tinha ciúme doentio. Ele jurava que não havia motivos para tantos ciúmes. Assim ficaram noivos estressados por longos treze anos. Terminaram o noivado. Ela chorou e muito se lamentou. Logo se enamorou de um homem casado. Foram felizes amantes por um bom tempo. O amante se separou da mulher e quis com ela ficar, sonhava ter filhos com ela. Ela disse não. Já estava com 32 anos. Velha demais para ser mãe pela primeira vez. Ficou só novamente. Reencontrou o antigo namorado de quando tinha quinze anos. Ele estava gordo e feliz. Casado com João.

 

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Ela já não tinha mais esperanças, dizia estar encalhada. Com a idade que tinha ninguém haveria de querer dela se apaixonar. Mudou-se da pequena cidade para outra um pouco maior. Lá não fez laços. Cansou-se da vida mansa e sem graça. Pediu demissão, fez as malas e mudou-se para cá. Bateu na porta do irmão e na casa dele e da cunhada morou por um tempo. Logo se ajeitou, arrumou um bom emprego e tratou de comprar uma casa bem maior que o apartamento onde morava o irmão. Mudaram-se todos para a nova casa. No trabalho, conheceu Pedro. Casado e com dois filhos. A mulher era do lar, nunca havia trabalhado fora. Ele dizia que mulher dele não trabalhava fora. Pedro se encantou por ela, nunca fez segredo que era casado, mas era muito infeliz. Começaram a sair juntos. Como sonhava nos tempos em que era moça encalhada, se produzia toda para encontrar o namorado. Eles tinham dia certo para namorar. Saiam nas noites de quarta, sexta e domingo. Em casa, ele dizia que era gerente de qualquer coisa e seu cargo era muito importante. Assim viveram por quase vinte anos, tiravam férias no mesmo período e sempre viajavam juntos por alguns dias. Depois, ele viajava com a família. Ela viveu assim, feliz e arrumadinha por muitos anos. Um dia, a esposa traída descobriu tudo e armou a tragédia.

Ele se deprimiu e ela adoeceu. Cada um em seu canto. Filhos infelizes.

 


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