CANTO DO BACURI > Mari Satake: Furusato

 

Sem mais nem menos, ele me perguntou: – De que fala a música popular japonesa? Surpresa, devo ter feito a velha cara de uéh e respondi que não sabia. Lembrei-me de algumas músicas “enka” e tentei me remendar, talvez falem de amores mal resolvidos, saudades da terra natal, dores de cotovelos. E afinal de que sempre falam as músicas populares? É disso mesmo que devem falar as músicas, tentei convencer.  Falou-me da banda de rock do filme que acabou de assistir, aquele último que passou por aqui de Kore-eda. Da banda passou a falar das crianças e de como as coisas se resolveram naturalmente, o mais velho, o menino caretinha, ficou com a mãe para viver uma vida caretinha em outra cidade; o mais novinho, menino descolado ficou com o pai músico.  Independente e sem ninguém a lhe ditar regras, é ele quem sabe o que e quando as coisas devem ser feitas. Já quase nem me lembrava mais do filme. E a banda de rock? O que haveria nela que pudesse lhe chamar a atenção? Qualquer dia pego o filme para ver de novo.

Agora, eis-me aqui. Passando uns dias na terra natal, resolvo dar uma checada naquela resposta que andei dando.

Navegando por uns e outros endereços relacionados ao assunto música “enka”  descubro que o termo “enka” tem sua origem no Japão moderno e inicialmente suas músicas eram consideradas como música de protesto.   Consta que lá pelos anos 1870, quando foi formado o primeiro partido político japonês, seus membros não tinham autorização para falar diretamente ao público. Por esta razão,  os políticos recorriam a músicos e interprétes para que suas mensagens ou discursos fossem veiculados e chegassem às pessoas.  A modalidade no entanto não durou por muito tempo, foi logo sofrendo transformações e  influências de outras partes do mundo. No século XX, lá pelos anos 1950, já com grande influência ocidental era um dos  gêneros musicais mais populares no Japão. Tão popular que estava sempre presente nos filmes, novelas e séries de televisão que eram produzidos.

Ignorante no assunto, apesar de ser filha de japoneses, não cresci muito ligada às músicas japonesas. Lembro-me que minha mãe e irmãs mais velhas falavam de alguns cantores e cantoras, mas eu mesma nunca me liguei em suas canções. Eram apenas as músicas japonesas que, naquela época,  eu preferia não ouvir e escutava porque não tinha como não escutar. Agora que estou mais velha, volta e meia reconheço uma ou outra canção e com um certo saudosismo me lembro daquela distante época. De uma de minhas irmãs me lembro que, de tempos em tempos, passava na sessão de filmes japoneses, filmes onde o principal protagonista era um cantor/ator que ela ficava meses esperando para ir assisti-lo no cinema. E depois das sessões de cinema, por um bom tempo, só se falava nos filmes e nas canções. Bons e distantes tempos.

E agora, enquanto procurava pelas músicas enka e suas referências, descobri um video com um cantor que parecia ter saído de alguma página de estórias de quadrinhos, cantando e dançando uma música não me era estranha. É o Soran Bushi! constatei. Vi e revi algumas vezes. Fui atrás de informações.

Nascido em 6 de setembro de 1977 com o nome de Kiyoshi Yamada, desde muito cedo gostava de cantar. Descoberto no Kohaku Utagassen da rede de televisão NHK, passou  um período treinando e estudando com Hideo Mizunori, compositor de músicas enka. Após três anos de treino, estreou profissionalmente no ano de 2000 com o nome artístico Hikaru Kiyoshi dado por Takeshi Kitano, o diretor de cinema, também ator, apresentador de tv, escritor e múltiplo artista de quem já falei algumas vezes.

O jovem cantor Hikaru Kiyoshi é hoje considerado o Príncipe da Música Enka no Japão e entre seus admiradores encontram-se pessoas de todas as idades, tanto os antigos admiradores da velha e tradicional música enka como os bem jovens que quase desconheciam este gênero musical. Muito popular no Japão, suas músicas estão também presentes em trilhas sonoras de desenhos animados e filmes.

 

Mari Satake escreve semana sim, semana não neste espaço

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