CANTO DO BACURI > Mari Satake: Guardados

 

Outra vez, às voltas dos descartados. São fitas de vídeo, de áudio, bolachas de vinil, livros e mais livros, revistas, recortes de jornais, CDs, DVDs e toda a sorte de memórias guardadas. Pequenas recordações trazidas das tantas viagens que foram fazendo desde quando as crianças eram muito pequenas. Anjinhos, vidrinhos de areia colorida retratando uma possível paisagem, bibelôs, pequenas esculturas e tantas outras coisinhas. Os bichos de pelúcia, os amiguinhos que compunham o teatro da pequena. Agora, estão todos ensacados, lavados e cheirosos. Tudo ali na antiga casa, à espera.

Da boa vontade da selecionadora dos descartados e é como uma vendedora que faço a pré-triagem. O que é aprovado trago para minha casa. Deixo as caixas empilhadas na minúscula cozinha. Não por muito tempo. A falta de espaço me obriga a fazer a triagem fina em pouco tempo e em seguida, levar para os possíveis lugares onde ficarão aguardando seus futuros donos. Acho que esta é parte que mais gosto, olhar com calma cada uma das coisas, tirar o pó acumulado, pensar onde terão mais utilidade. Sei que boa parte dos materiais trazidos já tem um destino certo, mas sempre tem uma ou outra coisa que ali não terão muita utilidade. Não servirão ali; mas existem outros lugares e assim vou separando em lotes distintos.

Já falei aqui da minha antiga ojeriza com as velharias, das implicâncias com minha irmã, dada a caridades e que costumava juntar coisas para doar a um ou outro necessitado lá na cidade onde mora. De uns anos para cá, resolvi cuidar da mesa de quinquilharias, livros, CDs e congêneres do brechó do templo. E não é que acabei tomando gosto pela coisa?

Ainda não tenho dados suficientes, mas já disponho de um arsenal de conhecimentos sobre a forma como funciona este tipo de mercado. Mercado das moedas miúdas. Daqui a duas semanas teremos o último brechó do ano e justamente neste não poderei trabalhar. Lá ficarão apenas meus queridos parceiros. O filósofo e o pintor.

No começo recebíamos e colocávamos à venda, tudo que nos era encaminhado. E sempre o que mais se recebe de doações são peças de vestuários. Principalmente das mulheres. Roupas, calçados, bolsas, sacolas, carteiras, cintos, gravatas e por aí vai. Peças rotas, rasgadas, remendadas, novas, seminovas, novíssimas, tudo misturado num grande saco ou sacola. E ali, numa das mesas amontoávamos as peças sem nem saber o que ali havia. E na mesa ao lado, as quinquilharias, os livros e revistas, os CDs e DVDs. Tudo muito bem disposto, organizado. Sobre cada uma das coisas à venda, pelo menos um dos três sempre sabe dizer algo a respeito. Assim, é claro que as peças de vestuário amontoadas quase nunca eram vendidas ao contrário das coisas na mesa das quinquilharias. Mas demorou certo tempo até assumirmos que nossa vocação não estava nas peças de vestuário. Passamos para o departamento que melhor lida com elas.

Depois de algum tempo, mexendo com as quinquilharias acabou acontecendo que, de vez em quando, sou convocada aqui e ali para resgatar os guardados de pessoas que se mudam ou precisam desocupar espaço em sua casa. E sem fazer propaganda. É a amiga da irmã que ficou sabendo, o namorado da amiga que também tem coisas, o primo da cunhada da amiga que falou e assim vai. De resgate em resgate os guardados vão se acumulando. E de tempos em tempos armamos as nossas mesas de quinquilharias e afins no grande brechó do Templo. Há coisas que logo saem, há outras que ali também encalham e sobre estas já sabemos, se foi para a mesa três vezes e ninguém se interessou, é hora de também nós, desocuparmos o espaço e encaminhar os nossos encalhados para outros centros de distribuição. Lugares que recebem doações de tudo o que se possa imaginar é que não faltam em nossa cidade.

 


Mari Satake escreve semana sim, semana não neste espaço – marisatake@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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