CANTO DO BACURI – Mari Satake: I wish

 

Por aqui, O que eu mais desejo. É o mais novo filme de Hirokazu Kore-eda em cartaz na cidade, desde a última sexta-feira.

O filme conta a história de dois irmãos, Koichi e Ryu que apesar da grande amizade que os une, são obrigados a viver separados após o divórcio dos pais. Koichi o irmão mais velho, muda-se com a mãe para a casa dos pais da mãe, seus avós, localizada no extremo sul da ilha de Kyushu. Ryu, o mais novo, passa a morar com o pai, músico de rock no norte da ilha.

Morando na casa dos avós, Koichi não tem muito com o que se preocupar além de seus deveres escolares e a limpeza do quarto que vive empoeirado. Da sacada de seu quarto enquanto contempla a imponência do vulcão que não cessa de lançar fuligem ao ar, entediado, passa a desejar que o vulcão entre em erupção e todos tenham que deixar o local. Assim, em sua inocência, acredita que sua família voltará a viver junto.
Na outra ponta da ilha, Ryu, o irmão mais novo que ficou com o pai, não tem o mesmo ritmo de vida pacata de seu irmão mais velho. De manhã, acorda sozinho para ir à escola, prepara seu lanche, ajeita suas coisas e sai. Antes de sair, acorda o pai que sempre, ainda dorme. Chegar à escola é uma festa para ele e seus amiguinhos. Antes de voltar para casa, depois das aulas, precisa comprar alguma coisa para complementar o seu almoço em casa. Ryu cuida da casa onde mora com o pai e também de uma pequena horta no quintal onde crescem tomates.
A chegada do trem de alta velocidade que passará a cortar a ilha põe em polvorosa os habitantes da pequena cidade onde vive Koichi. O avô, fabricante aposentado de um tradicional doce, sonha desenvolver uma nova receita, mais adequada aos padrões atuais, para que seu doce seja servido no trem que chegará. As crianças também se agitam com a novidade que vem chegando. Um dia, um amigo de Koichi diz que se um pedido for feito ao se presenciar a passagem pelo mesmo local de dois trens que seguem em direção opostas, esse pedido será realizado. Mais do que depressa, Koichi, se cerca das informações necessárias e calcula o local e o horário em que os dois trens se cruzarão. Ele e seus dois melhores amigos traçam um plano para chegarem ao local no exato momento em que ocorrerá o evento. Para tanto montam uma operação com direito à cumplicidade de alguns adultos, o avô e a enfermeira do colégio.
No outro extremo da ilha, Ryu compartilha com suas melhores amigas, o segredo que seu irmão lhe contou. Também eles traçam suas estratégias para conseguirem realizar o passeio em direção ao lugar calculado pelo irmão mais velho para fazerem o pedido para que seus mais caros desejos se realizem.
Chegado o tão esperado momento do encontro entre os irmãos, inicialmente há um estranhamento por parte de Koichi, o mais velho, que não esperava a chegada do irmão acompanhado das novas amigas. Estranhamento que logo se desfaz e juntos partem em busca do melhor local para presenciarem o evento que acontecerá na manhã do dia seguinte. Aqui também há a providencial ação mágica e bondosa de adultos colaborando para que as crianças consigam dar cabo à sonhada empreitada dos garotos. Magicamente, surgem os supostos avós da amiga de Ryu, aspirante a atriz,
que os acolhe em sua casa para o pernoite e logo cedo os levam de carro até as proximidades do local onde as crianças poderão ver a chegada do decisivo momento.
O tão esperado momento chega e com toda força que podem as crianças fazem seus pedidos. Pedidos feitos é hora de se despedirem. Os irmãos caminham lado a lado. O mais velho con­fidencia que precisou mudar seu pedido, o mais novo também faz a mesma confidência. Nenhum deles pediu pela volta da união da família. Chegam à estação de trem e em lados opostos os dois grupos se despedem.
Novamente em suas casas, as crianças parecem ter tomado posse de suas vidas e de seus desejos, reformulando-os, se preciso.
Diferente do filme de 2004, o premiado e muito falado Ninguém pode saber em O que eu mais desejo, o diretor Kore-eda nos mostra o processo de amadurecimento de crianças conduzido pelos tons e fantasias próprias do universo infantil. Ainda que o mundo adulto seja cruel e pesado há o encantamento do olhar ingênuo e fanta­sioso sobre a vida.

Redação

Redação

nippak@nippak.com.br
Redação

Últimos posts por Redação (exibir todos)

Related Post

SILVIO SANO >NIPÔNICA: Terremotos e furacões Estava para iniciar minha Nipônica desta semana quando ouvi a primeira notícia sobre novo terremoto no México (magnitude 7,1 graus), 12 dias após outr...
ERIKA TAMURA: Visto de Yonsei Eu relutei muito em falar sobre esse tema, pois ainda acho um pouco precipitado esse tipo de abordagem. Mas como estou n o Brasil, muitas pessoas ...
ESOTÉRICO: Horoscopo da Semana (Previsões de 08 a ...   Horoscopo   Áries (20 de março a 20 de abril) Neste momento é irrelevante você querer deter o controle sobre os acontecimentos. Essa a...
LITERATURA: Kiyoshi Ikeda aborda futebol “sob o po... Acontece neste domingo (29), a partir das 10 horas, no Teatro CEU (Centro Educacional Unificado) Caminho do Mar, no Jabaquara (zona Sul de São Paulo),...

One Comment

  1. Muito boa resenha, Mari, deu vontade de ver!

Faça seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *