CANTO DO BACURI > Mari Satake: Kako

Dias atrás, a cozinheira fez um delicioso e belo bolo de aniversário para comemorar o aniversário de Kako. Kako é desses seres que a gente conhece e sem nada saber deles passa a gostar como se fosse um irmão, um sobrinho, alguém muito querido, simplesmente pelo fato de existir.

Kako chegou ao Brasil há alguns anos. Já deve estar beirando os dez anos que veio para cá. Chegou bem menino ainda, devia ter seus vinte e poucos anos. Pouca idade e uma imensa responsabilidade em seus ombros. Atento, cumpre suas funções e sempre que necessário, apresenta-se, devidamente paramentado para substituir colegas que tiveram que se ausentar.

Kako está quase sempre sorrindo. Quando algo não vai bem com ele, seu rosto fica mais sério, porém, se alguém lhe dirigir a palavra, na mesma hora, volta atenção para a pessoa e bondosamente responde. É um ser bastante especial este Kako.

Tem algum tempo, ficamos sabendo. Ele está apaixonado e vai se casar. Da noiva, sabemos o nome e o que faz. Quase nada mais.

Se a noiva quer vir morar aqui ou continuar em seu país, não faço mínima ideia. Mas, imagine. Alguém muito jovem que nasceu e cresceu num país civilizado, tendo uma profissão definida e exercendo-a em seu país, abriria mão de suas conquistas para viver no Brasil? O que tem de atrativo para atrair uma jovem? Sol. Natureza. Belas praias. Areia branca e fofa? Para uns poucos dias de férias e alienação são ótimos ingredientes. E nem seria o caso. Em São Paulo, cidade onde vive e trabalha o noivo, não temos nada disso.

Temos ruas esburacadas, calçadas cheias de sujeira e buracos, imensa população de jovens em situação de rua, água de péssima qualidade nas torneiras, alimentos contaminados por agrotóxicos, comidas em restaurantes de baixa qualidade e preços abusivos. E uma infinidade de outras mazelas. E, é claro, para as pessoas jovens é bom não nos esquecermos da alta taxa de desemprego, principalmente para os mais instruídos.

Dá para pedir para alguém vir morar em São Paulo? No Brasil?

Se, pedi para Kako trazer sua noiva, futura esposa, para vir morar em São Paulo, foi em momentos de fuga da realidade. Nossa triste e dolorosa realidade. E Kako bem sabe disso, pois até de sua boca já ouvi um zombeteiro “Fora Temer”. E ainda, naquele mesmo dia, ele comentou sobre o triste e covarde ataque contra a população dos desvalidos da Cracolândia.

Sendo cidadão de país civilizado, querer casar e trazer a esposa, para ter filhos e criá-los por aqui é medida que espelha sanidade mental? Nosso amigo Kako merece lugar melhor.

 

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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