CANTO DO BACURI > Mari Satake: Misora Hibari em seu primeiro filme

Aos doze anos de idade, aquela que se tornaria no maior fenômeno musical do Japão foi a protagonista em 1949, de Kanashiki Kuchibue (Assobio triste), filme produzido pela Shochiku. Trata-se de Misora Hibari. Além do título do filme, tratava-se também da música que lhe renderia uma soma de 450 mil cópias vendidas. Dirigido por Miyoji Ieki, este filme tem como palco as agruras do pós-guerra, num país que tenta se recuperar e assim vencer os próprios dilemas internos.

Existe miséria pelas ruas, uma quantidade enorme de desempregados, maltrapilhos, adultos e também crianças. Um homem caminha em seus passos errados e abaixa para recolher um toco de cigarro. Alguém mais rápido aparece e cata primeiro, é um menino órfão largado à própria sorte. É a luta pela sobrevivência. Aquele homem procurava pela irmã mais nova, Mitsuko Tanaka. Ninguém sabe a respeito, pois Mitsuko, para sobreviver entre os demais vestia-se de menino, que o chamavam de Tibiko. É justamente Hibari neste papel emblemático.

Alguma coisa de muito semelhante com a própria vida de Misora Hibari, este um nome artístico, da filha de um vendedor de peixes em Yokohama, chamada Kazue Kato. Desde cedo, mostrava talento, cujo pai reconhecendo tal qualidade, investe todas as suas economias nela. Isso acontece em 1945, bem no ano da rendição do Japão. O primeiro filme teria sido Nodojiman Kyo Jidai, de 1949, meses antes de contracenar em Kanashiki Kuchibue.

Mas teria sido justamente com Kanashiki Kuchibue a sua maior expressão como cantora e atriz. Apesar de tratar de um assunto delicado, como a miséria material e moral de toda a população, a música é capaz de tornar a melancolia menos sofrida. Há neste filme uma mudança de costume dos japoneses ao se deixar levar por uma influência ocidental, principalmente da cultura americana. Seria os Estados Unidos o modelo a ser copiado, o país que se tornou hegemônico economicamente e na indústria cultural após a guerra. O próprio Japão vivia sob a tutela americana, com a ocupação do país até 1952.

A música americana vencia as fronteiras do Pacífico e era tocada nos rádios, o principal emissor de informação. O cinema era um outro veículo de entretenimento, que os japoneses passaram a dominar tão bem. Sem a contar os discos de vinil, do tipo compacto simples, com duas músicas. Outro sucesso de Hibari teria sido Kappa Boggie Woogie, igualmente cantada por ela no filme. Promover o filme e vender os discos eram maneiras de se tornar famoso, para o que viria em seguida.

No campo das emoções, a música de Hibari servia para tornar a vida tolerável, capaz de produzir sonhos para um futuro melhor. Os Estados Unidos investiam no Japão, pois se tornaria posteriormente num grande aliado econômico. Quando se fala em Misora Hibari, leva-se em consideração o seu papel na construção deste país através de sua música. O reconhecimento vai acontecer em 1989, quando o Primeiro Ministro Sôsuke Uno outorgou-lhe-a o prêmio Kokumin Eiyosho – Honra ao Mérito da Nação.

Depois de Kanashiki Kuchibue, no ano seguinte, 1950, Hibari fez Tokyo Kid, cuja temática continuaria sendo a do menino órfão que canta para sobreviver. No primeiro filme, algumas cenas são bastante significativas, senão incômodas. A menina sobre um tambor de óleo canta para os mendigos que habitavam os portos. Eles dão as suas economias e sentem-se aliviados de suas dores. A voz de Hibari é firme e poderosa, capaz de penetrar na alma daqueles e dizer a respeito de suas desilusões.

Mas o sucesso de Hibari neste filme é no desfecho. Ela vai cantar numa casa de espetáculos noturnos, de orquestras, bebidas e rufiões. Não usa desta vez seus vestidos simples, de tecido ordinário. Sua indumentária imita os cantores dançarinos de Hollywood: cartola, fraque e uma bengala. Esta cena possivelmente mereceria crítica, o que teria acontecido. Sua vestimenta de adulto e o local de apresentação, o Cabaret Orion. De fato, aquela menina cresceu muito rápido para a fama.

De qualquer forma, Misora Hibari representaria a emoção japonesa no momento mais crítico da história e seu deslanche para o crescimento. Teria sido importante também para os imigrantes japoneses no Brasil, que embalavam o sonho de sucesso. Aliás, esteve aqui em 1970, em três noites no Ginásio do Ibirapuera, com o patrocínio da Rádio Santo Amaro.

 

MARI SATAKE

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