CANTO DO BACURI > Mari Satake: Mogari no Mori

Filme de Naomi Kawase. Ganhou o Premio Especial do Júri no Festival de Cannes em 2007. Chegou por aqui no ano seguinte na Mostra Internacional de Cinema de 2008 com o título A Floresta dos Lamentos. Filme belíssimo que infelizmente não entrou em cartaz no circuito comercial da cidade.

O filme gira em torno dos meandros que cercam a existência da jovem Machiko e do senil Shigueki. Machiko é uma jovem mãe que acaba de perder seu filho, muito pequeno ainda. Inconformada, sem encontrar palavras que justifiquem esta perda, Machiko vai trabalhar num pequeno asilo de idosos localizado à beira de uma densa floresta. Movida, talvez por uma tentativa de anestesiar sua dor colocando-se a serviço de seres necessitados de ajuda. No asilo, recebe a seu encargo o senil Shigueki que atravessa sua existência escrevendo cartas diariamente para a amada esposa morta há muitos anos. Também ele, dá mostras de não saber se ainda vive. Ao encontrar-se com o monge que visita o asilo pergunta-lhe como poderia saber se está vivo. O monge, pacientemente lhe diz que é muito simples; basta olhar para as pequenas coisas que realiza em seu cotidiano, como por exemplo, o ato de comer para manter o corpo, a sua vida.

Inicialmente, a relação entre Machiko e Shigueki mostra-se bastante tensa. Tensão que, no entanto, vai se dissipando conforme a convivência prossegue. Num determinado dia, Machiko sai a passeio com Shigueki que carrega em suas costas uma grande e pesada mochila. O que ele carrega ali dentro não se sabe. O aparentemente simples passeio que fariam logo prenuncia momentos tensos quando o carro de Machiko encalha e ela não consegue tirá-lo do lugar. Preocupada, olha para seu entorno e decide procurar auxílio na casa que avista logo adiante. Pede a Shigueki que fique dentro do carro enquanto ela sairá atrás de socorro. Pedido vão. Ao retornar, Shigueki já não está no carro. Desesperada, corre em sua busca e ao encontrá-lo numa plantação de melancias, não consegue fazer com que ele a siga de volta ao carro. Ao contrário, ele se embrenha pela floresta cada vez mais.

Desesperada, ela o segue. Surdo aos seus apelos, Shigueki prossegue floresta adentro até chegar ao ápice da tensão, quando Machiko aos gritos lhe implora que não atravesse o rio. Ali ela parece vislumbrar apenas a morte, o fim. Impassível, ele prossegue mesmo com a enxurrada que parece querer tragar a ambos. Se antes, era ela quem cuidava de Shigueki como uma criança que requer constantes cuidados, agora é Shigueki quem a conforta em seu desespero e com a sabedoria própria de quem já enfrentou mil e tantos sofrimentos, lhe diz que a água do rio nunca retorna a sua origem. Mais tarde, com a natureza já apaziguada após a tempestade, diante da fogueira para aquecer seus corpos, Machiko percebe que Shigueki quase não tem forças para manter seu corpo vivo. Imediatamente, tira sua blusa e com seu próprio corpo aquece o corpo desfalecido de Shigueki. É com o calor de seu corpo que lhe restitui a energia vital que se esvaia. Aqui já estão novamente em seus lugares. E ambos sabem que aquela jornada ainda não terminou. Shigueki prossegue pela floresta, ela oferece ajuda para carregar a pesada mochila, ele recusa e continuam andando. Logo ele lhe aponta, ali em meio à densa floresta está a enorme árvore. É lá onde a amada esposa Mako o espera. Joga-se ao chão e desesperadamente começa a cavar a terra molhada pela chuva, Machiko o ajuda a cavar. Da enorme e pesada mochila, Shigueki tira as cartas que escreveu ao longo dos mais de trinta anos após a morte da esposa Mako e que agora serão ali enterradas.

Agora, às vésperas de completar 33 anos da sua morte, Shigueki lhe entregará a prova de sua fidelidade guardada nestes anos todos. Conforme uma antiga crença budista, após este período de 33 anos é chegada a hora de Mako tornar-se Buda deixando o plano terrestre dos seres vivos. Extenuado pelo grande empreendimento, Shigueki cai sobre a terra molhada e ali se deixa descansar. Um pouco afastada dali, com a expressão serena e com a caixinha de música em suas mãos, Machiko contempla a altura. E lá do céu chega o som rouco do motor de um helicóptero.

 

 

 

Mari Satake escreve semana sim, semana não neste espaço. marisatake@yahoo.com.br

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