CANTO DO BACURI – Mari Satake: Namorar em francês

 

Menina sonhadora, sempre acreditou que um dia encontraria seu príncipe encantado, se casaria com ele, teria um lindo casal de filhos e na alegre família todos seriam felizes para sempre. Assim pensava a menina na pequena cidade do interior de Minas. Oitava filha de uma família de doze filhos, desde muito cedo, teve que aprender a se defender. Seu objetivo maior sempre foi o príncipe encantado, mas tinha noção que jamais o sapo do brejo se transformaria no seu sonhado príncipe. Para isso, sabia que precisava trabalhar e no seu caso, trabalhar era sinônimo de estudar, coisa que ela gostava de fazer.
Curiosa, sonhadora, vivia às voltas com as leituras. Se transportar para os enredos dos contos e novelas românticas que lia era o que mais fazia na adolescência. Um dia, a menina conheceu o cinema. Ficou encantada. E se frustrou. O cinema ali era coisa rara. Não havia uma sala de projeção rotineira, como nas cidades maiores. Decidiu que precisava ir para a cidade grande. Para sorte sua, a família já havia decidido que ela também partiria para a capital para dar prosseguimento aos estudos. Morou na capital mineira durante os três anos do clássico. Naquela época, no ensino médio, os alunos se direcionavam aos cursos normal, clássico ou científico. Dizia-se que para o normal iam as meninas que logo se casariam e se tornariam professoras dos primeiros anos escolares; para o científico iam os “geninhos”, aqueles que gostavam de matemática e ciências de modo geral; para o clássico, iam os “cabeça”, aqueles que gostavam de pensar nos mistérios da vida e outras coisas mais.
A amiga Maria Celeste é claro, só poderia ter feito o clássico. Na capital mineira, pela primeira vez na vida, soube o que era o mundo longe daquela enorme casa sempre tão cheia de irmãos, tios, avós e toda sorte de gente que sempre aparecia na casa dos pais. Talvez, para suprir um pouco a falta de familiares ao seu redor e também a carência de cinema de seus anos anteriores, passou a freqüentar algumas salas de cinema com uma assiduidade jamais imaginada por ela. Com as leituras e os filmes que via, foi conhecendo a vastidão do mundo e as muitas possibilidades para um futuro grandioso como de muitas das suas heroínas do cinema ou dos romances que lia.
Próximo do final do curso clássico quando já delineava para si uma carreira no mundo das palavras, a família no interior passava por algumas revoluções e os pais haviam decidido que venderiam casas, sítio, máquinas, ferramentas e partiriam para São Paulo. Os pais já estavam idosos, os filhos mais velhos, todos já haviam partido para as grandes cidades. Os mais novos, pelo que o pai pressentia, seguiriam o mesmo caminho dos mais velhos. Achou então melhor, vender tudo e vir para São Paulo. Assim, pelo menos, os menores estudariam e todos morariam juntos, pelo menos, enquanto fossem de suas responsabilidades a educação dos meninos.
Assim chegou Maria Celeste na capital paulista nos anos mil novecentos e setenta. São Paulo era tudo o que sonhadora menina queria. Livros, bibliotecas, teatro e cinema, muito cinema. E gente, muita gente, das mais variadas para saciar a sua fome de conhecer gente que pensa das mais variadas formas. Falando assim, o óbvio seria concluir que ela teria partido para a carreira de filósofa, socióloga, psicóloga, talvez psicanalista. Mas não. Fez francês, no curso de letras. Na universidade, se envolveu com alguém do movimento estudantil. Mesmo com a vida conturbada dos jovens estudantes de sua época, os dois se casaram, ela saiu da casa dos pais e com o seu príncipe encantado tentou viver o sonho da linda família feliz. Logo teve uma filha, uns dois anos mais tarde, o menino. Estava composta a família sonhada desde a adolescência. Família que tão logo chegou o pequeno recém-nascido, o pai tratou de anunciar que sairia de casa. O mundo de Maria Celeste parecia desabar, não desabou porque tinha os pequenos seres indefesos e os irmãos, pais e amigos para ampará-la.
Passados tantos anos com os dois filhos bem crescidos e se virando na vida, Maria Celeste outro dia me chegou com a confissão: – quer saber por que fui estudar francês? Eu era doida para namorar em francês.
Caímos na risada, quem diria? Efeitos dos filmes franceses daqueles bons e velhos tempos.

 

marisatake@yahoo.com.br

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