CANTO DO BACURI > Mari Satake: NOVOS TEMPOS

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Ontem encontrei Regininha. Fazia tempo não nos víamos. Regininha e eu somos amigas ocasionais. Quando jovens, frequentamos a mesma faculdade, fui caloura dela.  Depois de formada, um dia, numa dessas reuniões de trabalho, encontramo-nos numa mesa de negociação. O reconhecimento foi imediato e fizemos uma boa parceria por um bom tempo. Com o final do contrato, cada uma seguiu o seu rumo.  Muitos anos mais tarde, já cansada da antiga rotina de trabalho e obrigações, resolvi cursar nova faculdade no período noturno, em área completamente distinta. Estava eu, nos primeiros dias de aula, em meio à garotada e vejo alguém da minha faixa etária se aproximando e me chamando pelo nome. Surpresa. Era Regininha. Ela, assim como eu, resolveu enveredar por novos caminhos. Frequentávamos o mesmo curso em salas diferentes.  Durante o dia, nossa rotina não era muito diferente, continuávamos em nossas ocupações, sempre às voltas com as mesmas questões, comuns à profissão. O curso noturno era o nosso alento. Havia um reconhecimento silencioso entre nós.

Naqueles cinco anos de curso, nunca calhou de estudarmos na mesma sala ou no mesmo grupo. Não era sempre que nos encontrávamos pelos corredores, ela, assim como eu, vivia chegando atrasada ou se ausentando algumas vezes, por conta dos compromissos profissionais. Mas estes atrasos ou ausências nunca nos atrapalharam na produção das obrigações do curso. Quando chegamos ao último ano da faculdade, seguimos para áreas distintas e nossos encontros foram se tornando mais raros. Depois de formadas, ainda nos falamos algumas vezes. Costumávamos trocar informações sobre cursos e grupos de estudos que andávamos frequentando. E ambas, continuávamos nos antigos postos de trabalho.  E ambas, paramos de trocar notícias até que o acaso fizesse com que nos encontrássemos novamente.

Regininha também é antiga moradora do pedaço. Ao mesmo tempo, nos perguntamos o que estamos fazendo na rua naquela hora do dia. Gargalhando as duas, nos reconhecemos. Já não estamos empregadas e podemos nos dar ao luxo de andar pelas ruas do bairro em plena tarde de segunda.

E foi ali, em frente ao prédio demolido da antiga padaria do bairro que ficamos nos falando por um tempo. E nem uma e nem a outra sabíamos a razão daquela demolição. Em busca de notícias, sentamos no balcão do boteco ao lado. Ali, também sentado no balcão, outro antigo morador do pedaço, começou a nos falar das características dos pães das padarias A, B ou C mais próximas que nos restaram. Nenhum pãozinho francês agrada ao seu paladar e sendo assim, resolveu ele mesmo começar a fazer os seus pães. Disse-nos que seu pão caseiro não tem nada a ver com o pão da Sagres, mas é bem melhor, até farinha integral ele está usando e se as amigas quiserem, estão convidadas para irem tomar um café e comer um pão com manteiga na casa dele que fica logo ali, dobrando a esquina. Rindo dizemos que agora não.

Ficamos ali apenas o tempo para um copo de água e nos despedimos com a promessa de um futuro encontro na padaria da esquina de baixo da rua do lado de lá.

 

MARI SATAKE

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